sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

PENSAMENTO JUAN VELASCO ALVARADO * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

PENSAMENTO JUAN VELASCO ALVARADO
APRESENTAÇÃO

A ditadura militar peruana (1968–1980), em particular a sua primeira fase, comandada pelo General Juan Velasco Alvarado (1968–1975), constitui-se em um ponto fora da curva no âmbito dos regimes homólogos na América Latina nesse período.

Foi, à época, a única ditadura em que os militares empunharam a bandeira do nacionalismo, do socialismo e da revolução popular contra as oligarquias, o latifúndio e o imperialismo estadunidense.

Via peruana do desenvolvimento:

participação popular na política e economia

O golpe que iniciou esse regime ocorreu em 13 de outubro de 1968, derrubando o presidente eleito Fernando Belaúnde Terry e empossando o Gal. Velasco Alvarado. Belaúnde Terry era um liberal-conservador que apoiava a Aliança para o Progresso e o alinhamento com os EUA, mas se elegeu com uma plataforma moderadamente progressista. Apesar de ter iniciado uma reforma agrária, criado refinarias estatais e investido em infraestrutura, saúde e educação, seu governo foi desestabilizado pela atuação de guerrilhas comunistas.

O golpe militar em 1968 tinha por objetivo reprimir essas guerrilhas e impor a doutrina de segurança nacional desenvolvida desde a II Guerra Mundial. Porém, os militares refletiram profundamente sobre as causas que levavam parte considerável dos camponeses a aderirem às guerrilhas. Entenderam que não bastava a repressão para a manutenção da ordem, pois, conforme haviam verificado em sua experiência no Peru profundo, não haveria segurança nacional sem desenvolvimento econômico e justiça social.

Então, pela liderança do Gal. Velasco Alvarado, iniciaram a chamada Revolução Nacionalista, que tinha como meta central superar o subdesenvolvimento peruano encontrando uma via nacional de desenvolvimento, que não fosse capitalista ou comunista, mas que expressasse a vontade popular de autodeterminação e melhoramento das suas condições materiais e existenciais.

De acordo com Velasco Alvarado, a via peruana do desenvolvimento seria caracterizada pela participação popular na política e na economia. O Estado e as relações de produção seriam a institucionalização da soberania popular, e, portanto, deveriam ser profundamente remodelados. Seu mote era de que, para problemas peruanos, deveriam ser encontradas soluções peruanas.

No âmbito político, foi criado o Sistema Nacional de Apoio à Mobilização Social, o Sinamos, com instâncias participativas que começavam nos lugares de trabalho e de moradia e subiam até o governo nacional. Então, práticas de autogoverno foram combinadas e estruturadas entre si para gerar um novo sistema político onde o povo, coalizado com o Exército, governaria a Nação sem a necessidade dos mediadores parlamentares oligárquicos, muitos subordinados ao estrangeiro, prevalecentes até então.

Na economia, o governo de Velasco Alvarado avançou em direção a modalidades participativas de produção. Entendia-se que a nacionalização da economia dependia não apenas de um maior papel do Estado, mas, também, de uma maior abertura a formas cooperativas. Assim como na dimensão política, Povo e Exército se aliariam entre si para expurgar os elementos oligárquicos e estrangeiros.

Assim, o governo militar experimentou diversas formas de propriedade e administração em substituição à grande propriedade privada: estatização, autogestão, cooperativas, restabelecimento de comunidades indígenas, participação de conselhos operários na administração das empresas privadas e estatais. Estado e cooperativas seriam parceiras para enfraquecer o setor privado, principalmente o estrangeiro.

Também foi feita, logo no início do regime, uma ampla reforma agrária que aboliu os privilégios senhoriais e organizou os trabalhadores rurais em cooperativas agrícolas reunidas localmente nas Ligas Agrárias e nacionalmente na Confederação Agrária nacional.

Velasco Alvarado também empreendeu vastos esforços de nacionalização das finanças e de industrialização em bases cooperativas e nacionais. Seu governo estatizou os bancos, repatriou todos os bens monetários peruanos no exterior e converteu à moeda peruana todos os depósitos feitos em moedas estrangeiras no Peru. Grande parte das operações de crédito do novo sistema, verdadeiramente nacional, foi direcionada para o setor cooperativo.

Também nacionalizou a indústria pesqueira e a petroleira estadunidense IPC. Criou a Lei Geral de Indústrias e o Registro Nacional de Produção Similar Nacional, para proteger a indústria nacional. Instituiu a participação de lucros em todos os segmentos da grane indústria para ampliar a fatia da renda nacional pertencente aos trabalhadores, vinculando o interesse de classe dos trabalhadores ao aumento da produtividade.

Uma ampla reforma educacional foi feita. O acesso às escolas e universidades foi bastante ampliado, e o método Paulo Freire foi adotado para estimular a alfabetização. O idioma indígena quéchua como língua oficial, abolindo a segregação linguística historicamente operada contra os indígenas.

No plano internacional, o governo de Velasco Alvarado adotou uma política externa independente e abriu relações diplomáticas e militares com a URSS. Com apoio soviético, modernizou as Forças Armadas peruanas. Também nacionalizou 200 milhas marítimas, o que era importante para a sustentação da indústria pesqueira autóctone.

Velasco Alvarado foi derrubado por um golpe militar de direita em 1975, organizado pela ala liberal-conservadora do Exército liderada pelo Gal. Francisco Bermúdez. O novo governo, que perdurou até 1980, desfez grande parte do legado de Velasco Alvarado e preparou um retorno à democracia oligárquica anterior, finalmente alcançado em 1980 com a eleição do mesmo Fernando Belaúnde Terry.

FELIPE QUINTAS/MONITOR MERCANTIL
JUAN VELASCO ALVARADO
(1910 - 1977)

Juan Francisco Velasco Alvarado, (Piura, 16 de junio de 1910 - Lima, 24 de diciembre de 1977), fue un militar y político peruano. Siendo jefe del Comando Conjunto de las Fuerzas Armadas de Perú, dirigió el golpe de Estado del 3 de octubre de 1968 que depuso al presidente Fernando Belaúnde Terry. Velasco ocupó la presidencia de facto del Perú entre 1968 y 1975 al frente del Gobierno Revolucionario de las Fuerzas Armadas. Velasco fue el máximo representante del llamado socialismo militar latinoamericano, buscando en su caso la implantación en el Perú de un "Socialismo de Participación Plena".

Durante su mandato, el cual se conoce también como la "primera fase del Gobierno Militar" (1968-1975), que duró hasta su derrocamiento como presidente, se nacionalizaron las industrias básicas -petrolífera, minera, pesquera, etc.- y se conformaron empresas estatales para su manejo. Se expropiaron diversos medios de comunicación másiva -periódicos, radioemisoras, televisión- las cuales fueron puestas al servicio de la mobilización nacional en favor de las reformas siendo llevadas acabo. Pero quizá la medida de mayor envergadura fue la realización de la Reforma Agraria, anunciada por Velasco el 24 de junio de 1969 con las celebre frase: “¡Campesino, el patrón ya no comerá más de tu pobreza!”. La Reforma Agraria puso fin al poderío de la burguesía terrateniente y al latifundismo en el país. Como parte ella se ensayaron diversas modalidades de cooperativas agrarias y empresas de propiedad social para manejar el usufructo de las tierras expropiadas.

En el ámbito social, también se creó el Sistema Nacional de Apoyo a la Mobilización Social (SINAMOS), la cual serviría no sólo para alentar la mobilización social pero también para intentar controlar y encausarla en favor de la llamada Revolución Peruana. En 1972 se decretó una reforma educativa que previó entre otros una educación bilingüe para los indígenas y hablantes de idiomas nativos, que componían casi la mitad de la población. En 1975 se oficializó el quechua como lengua oficial junto al castellano, medida que no se cumplió cabalmente en gobiernos posteriores.

En el ámbito internacional, el Gobierno Revolucionario de las Fuerzas Armadas promovió una política de no alineación, bajo el lema "ni con el capitalismo ni con el comunismo". La oposición activa de los Estados Unidos, sin embargo, implicó que en los hechos el gobierno peruano estrecharía alianzas con el bloque soviético. También se entró en ese período en una costosa y peligrosa carrera armamentista con Chile.

Internamente, Velasco encontró oposición no sólo por parte de las clases dominantes, sino también algunos sectores de la izquierda, quienes desconfiaban del régimen castrense, opinaban que el ritmo de las reformas era demasiado lento o creían que no serían lo suficientemente profundas.

El 29 de agosto de 1975, el General de División Francisco Morales Bermúdez, entonces Presidente del Consejo de Ministros, dirigió un golpe militar que derrocó a Velasco e inauguró la llamada segunda fase del Gobierno Militar en que se dió marcha atrás a muchas de las reformas realizadas en el primer período. En 1980, se instaló un nuevo gobierno civil, con Belaúnde otra vez como presidente.

ARTICULOS Y DISCURSOS
















ARQUIVO MARXISTA DA INTERNET
A ÚLTIMA ENTREVISTA COM VELASCO ALVARADO

Às 17h da última segunda-feira, dia 24, César Hildebrandt foi recebido pelo general reformado Juan Velasco Alvarado. Isso marcou o fim de vários dias de tentativas persistentes. O que começou como uma conversa informal sobre os problemas de saúde cada vez mais controláveis ​​do general transformou-se em uma longa entrevista gravada — em certo momento, nosso editor precisou encomendar uma nova fita — , abrangendo uma ampla gama de tópicos, desde o dia 5 de fevereiro até a conduta de Zimmermann, incluindo a infiltração comunista e as simpatias partidárias do entrevistado. Talvez alguns se perguntem por que a revista Caretas dá oportunidade a alguém que atacou sistematicamente a liberdade de imprensa e foi particularmente brutal em sua perseguição a esta publicação. A resposta é simples: o estilo da Caretas não permite que ressentimentos, mesmo que não esquecidos, perturbem sua objetividade ou a impeçam de praticar o tipo de jornalismo que é muito mais envolvente do que apaixonado, que é seu objetivo constante. Ao apresentar este furo jornalístico, a Caretas ajuda a dissipar preconceitos, mitos e silêncios.

— General, agora talvez o senhor tenha tempo para refletir sobre coisas que não podia fazer antes. Já refletiu sobre o verdadeiro objetivo do seu governo?

Sim, eu já fiz isso.

— Como você avaliaria essa meta agora?

Para tornar o Peru um país independente e mudar as estruturas para que o Peru pudesse se desenvolver de forma independente, com soberania. Não um país vendido, de joelhos. Como era aqui? O embaixador americano estava no comando! Quando eu era presidente, o embaixador precisava solicitar uma audiência, e eu o controlava a quilômetros de distância. Eu os prejudiquei. Expulsei a missão militar americana.

Havia aqui 50 ou 60 oficiais americanos, e o governo peruano tinha que pagar seus salários, suas despesas de viagem, até mesmo o gatinho que suas famílias trouxeram. E eles faziam parte da rede de inteligência da CIA.

Não precisávamos disso; éramos suficientemente velhos para não termos que consultá-lo sobre tudo. Nossas escolas militares aqui são muito boas. Podemos até oferecer vagas para eles.

— Muitas pessoas te consideram uma pessoa ressentida, o que você acha disso?

Ressentimento? Contra quem? Contra ninguém! Eu não dei um golpe. Eu liderei uma revolução. Foi uma revolução bem planejada. Porque entramos em ação imediatamente, operando com rapidez. Conquistamos tantas coisas em um ritmo assustador. Eu sabia que eles me derrubariam a qualquer momento. Porque aqui no Peru, inevitavelmente, a oligarquia nunca morre…

https://www.youtube.com/watch?v=i8fo4ufhVgc

Aviso Revolucionário, 1971.

—Você acredita nisso?

Bem, pelo menos durante meu governo, moldamos a oligarquia de tal forma que a desmantelamos. Muitos disseram que uma das conquistas da revolução foi acabar com a oligarquia. Bem, acredito que não acabamos com a oligarquia. Remanescentes permanecem. E esses remanescentes estão crescendo novamente. Minha consciência está tranquila, exceto por uma coisa. Porque eu não terminei o trabalho da revolução. Não concluímos as reformas da saúde e da habitação. E não as fizemos porque fui deposto.

— E por que você acha que o tiraram de lá?

A ambição política, a ambição pelo poder…

— Mas foram as Forças Armadas que o removeram. Não foi um gesto pessoal…

Estava tudo planejado. Acabei de descobrir que os comandantes-em-chefe estavam reunidos em Lima havia três ou quatro meses antes de 29 de agosto. Além disso, eles já haviam tentado isso antes .

— Quando ?

5 de fevereiro .Os eventos de 5 de fevereiro foram orquestrados com o propósito de me destituir. Na véspera de 5 de fevereiro, houve uma reunião de gabinete, na qual convoquei o presidente do Comando Conjunto, Vargas, e o chefe da Segunda Região Militar. Diante de todos os ministros, foi dada a ordem: que no dia seguinte, ao amanhecer, o quartel fosse tomado e recuperado. O modo como isso seria feito dependia deles. Posteriormente, foi solicitado que tomassem as medidas de segurança cabíveis. Segundo o que alegaram depois, revisaram os planos. Mas a verdade é que não tomaram nenhuma providência.

— Você responsabiliza o General Rodríguez Figueroa pelo que aconteceu em 5 de fevereiro?

E ao então Presidente do Comando Conjunto.

— Para Vargas Prieto?

Vargas Prieto , aquele que teve que renunciar. Que bom para ele. Ele causou muito dano ao exército. Acusou pessoas inocentes, colocou-as na cadeia… Pensaram que eu ia cair naquele dia… Eram poucos da APRA. Havia membros da APRA e pessoas de outras ideologias…

— E por que você não caiu no dia 5 de fevereiro, então?

Porque me tiraram fotografias. E havia uma pessoa que foi claramente identificada…

− Enciso…

Enciso, sim. Eles me imploraram tanto para dar salvo-conduto a Enciso, mas ele pediu asilo em uma embaixada. Mas eu não lhe daria por nada. Não senhor, isso é impossível. Eu não lhe dei o salvo-conduto. No entanto, depois que me expulsaram, cerca de dez dias depois, deram-lhe o salvo-conduto. Foram eles que o executaram. Mas havia ladrões, multidões que se aproveitaram da situação.

Velasco em Trujillo, outubro de 1969.

Alguns setores sempre o criticaram por ser amigo dos comunistas, por ser leniente com eles…

Não só isso, disseram-me que eu oficializei o comunismo. E isso é ultrajante. Meu amigo Frías diz isso. Li na revista "X". Como eu poderia ser comunista? Fui soldado a vida toda. Havia alguns meio-comunistas no governo, que eram aceitáveis. Vocês me acusariam de macartismo se eu tivesse perseguido os comunistas. Na verdade, eu disse que os comunistas se infiltraram. Houve infiltração. E ainda assim, esse guerrilheiro, esse jovem guerrilheiro, qual é o nome dele?

— Béjar?

Béjar. Bem, Béjar diz em seu livro "A Revolução na Armadilha" que não houve infiltração comunista. Como assim não houve infiltração comunista? Havia infiltração comunista em todo lugar, cara. E no SINAMOS, onde Béjar trabalhava, havia mais infiltração do que em qualquer outro lugar.

— E você lutou contra essa infiltração?

De certa forma. Eu não declarei guerra contra eles, não saí caçando guerrilheiros como eles fizeram aqui antigamente. Não os persegui. Também não persegui o partido APRA. Não persegui partido nenhum, cara. Um homem é senhor de suas próprias ideias e é livre para expressá-las como bem entender. A menos que o forcem a mudar. Ou o manipulem. Um dos pontos da nossa revolução era: pluralismo político. Então, a revolução peruana foi para todos os peruanos, não apenas para alguns escolhidos. Eu costumava dizer que, para aqueles que não queriam participar da revolução, a revolução acabaria se infiltrando em seus poros.

Velasco, 1973.

— General, do outro lado, dizia-se que no final do seu governo o senhor era amigo da Apra, que até apoiava o MLR e um suposto neo-Aprismo que alguns atribuíam a Tantaleán…

Eu era muito amigo do Tantaleán, mas isso porque ele era pastor e porque éramos amigos desde que trabalhamos juntos em Piura. Mas eu não sou nenhum garoto que vai se deixar influenciar ou manipular pelo Tantaleán. Escutem o Tantaleán! Que ideia maluca!

— Tantaleán era a favor da APRA?

Eu não saberia dizer, eu não saberia dizer.

— Você sentiu alguma conexão com alguma das partes?

Eu tinha certa simpatia pelos democratas-cristãos, por causa de seus princípios. O único partido que tinha pontos de vista claros e concretos era o dos democratas-cristãos. Os outros eram só conversa fiada.

— Livros como "O Poder Invisível" descreveram você como um homem ressentido, cheio de amargura por causa de sua infância pobre e difícil. O que isso lhe faz sentir?

Eu teria sido como o escorpião. Eu mesmo teria injetado o veneno. Quando fiz a revolução, eu já era major-general. Tinha alcançado o ponto mais alto da minha carreira, major-general.

— Que cargo ele ocupava?

Ele comandava o Exército e as Forças Armadas. Era o general comandante do Exército e presidente do Comando Conjunto. Dinheiro? Eu não precisava de dinheiro, cara. Eu tinha sido adido militar na França, onde ganhei um bom dinheiro como diplomata. Mais tarde, fui membro da Junta Interamericana de Defesa e ganhei bem lá também. Nós economizávamos; nunca fui esbanjador. Meu filho, o arquiteto, construiu esta casa para mim. Então esta casa é anterior a... Então eu tinha dinheiro, o suficiente para viver confortavelmente. Eu não participei da revolução para encher os bolsos. Onde está o dinheiro que eu roubei? Eu não tenho dinheiro nenhum. Mal consigo sobreviver. Vivo só da minha aposentadoria. Como ainda estou doente, não posso trabalhar em mais nada...

— Se não for incômodo perguntar, qual é o valor da pensão de um major-general? Quarenta mil?

Eu nunca cheguei aos 40... Então não fiz a revolução por mim mesmo. Eu já tinha viajado, visto o mundo, o que mais eu queria?

Velasco e o Ministro das Relações Exteriores Edgardo Mercado Jarrín durante um discurso televisionado (1969)

— Você também teve tempo para refletir sobre os erros mais importantes do seu governo?

Eu poderia responder imediatamente, mas primeiro quero lhe dizer algo. Meu governo era um governo das Forças Armadas. Eu não era, como dizem, o tirano que dizia isso, aquilo e assim por diante. Isso é falso. Eu submetia tudo à votação no gabinete.

— Incluindo deportações?

Vou contar como correram as deportações. Enquanto eu estava no meu gabinete no Palácio Presidencial, os três Ministros das Forças Armadas solicitaram uma audiência. Morales, Gilardi e um jovem da Marinha, Gálvez, entraram. Vieram me pedir duas coisas. Havia sido ordenado que os três Ministros das Forças Armadas fizessem uma apresentação às suas respectivas instituições para explicar os objetivos do governo, o que estava sendo feito e até que ponto já havia chegado. Os presentes tiveram a oportunidade de fazer perguntas. Morales apresentou o primeiro item da pauta. Ele disse que, se certas questões fossem levantadas, qual deveria ser a resposta institucional das Forças Armadas ? E discutimos ponto por ponto qual deveria ser a resposta. Foi isso que Morales me disse. Depois de meia hora, Gilardi falou. Ele me disse que um bom número de pessoas da extrema direita e da extrema esquerda deveria ser deportado, juntamente com alguns oficiais e comandantes da Força Aérea, e após consultar os do Exército. "Bem, vamos ver", eu disse. Então liguei para o Ministro do Interior. "O senhor soube?", perguntei. "Já que o senhor tem a informação, faça uma lista dessas pessoas. Claro, inclua suas razões, para que possamos analisá-las mais tarde no gabinete." Dias depois, perguntei ao Ministro: "A lista está pronta?" "Está pronta", respondeu ele. Então, diante de todos os ministros, ele leu a lista de todos os senhores que seriam deportados. Avisei os ministros que a lista poderia aumentar ou diminuir, dependendo da votação da maioria. Acho que conhecia quatro pessoas na lista. Nem conhecia as outras. Lembro-me de ter pedido que Townsend fosse retirado da lista . Eu não o conhecia pessoalmente; nunca havia falado com ele, mas o conhecia, assim como conhecia outros líderes, por seus escritos. Outros nomes foram adicionados, outros pediram que outros nomes fossem removidos. Lembro-me de Tantaleán pedindo que Malpica não fosse deportado. É verdade. Valdés retirou Pássara da lista. O Ministro do Interior acrescentou o líder jovem da APRA, Roca .

Sexto aniversário da Revolução, 1974.

— General, o senhor diz que a revolução está paralisada porque não houve medidas transformadoras. Mas, diante da crise econômica, o que o senhor teria feito?

Resolver a crise econômica.

— Sim, mas como?

Puxa, cara, tem um bando de incompetentes em posições-chave. Não é assim que se conserta a economia do país. Vi que demitiram o Guiulfo, um jovem muito inteligente, e o Barreto do Banco Central, um cara com muita experiência. É assim que se constrói uma nação? Demitiram os bons funcionários e deixaram um bando de moleques no comando.

— Pirralhos, em geral?

Para mim, pirralhos, velho.

—Você chamaria Barúa de pirralho?

Mas Barúa também estava comigo… Então não vejo nenhuma medida para consertar a economia, a dívida…

— O senhor herdou uma dívida de 800 milhões de dólares. E quando deixou o cargo, ela estava em 4 bilhões de dólares. Como um governo como o seu pôde gerar uma dívida tão alta?

Depende do que você faz. Se você entra para o governo e não faz nada, não gasta um centavo. A revolução foi sobre criar um novo Peru. Terras tiveram que ser expropriadas e as pessoas tiveram que pagar por elas. Cada transformação custou dinheiro ao país; as contas são claras. Vou te dar o oleoduto Poechos-Cuajote-Bayóvar-Olmos, a fábrica de papel, a fábrica de fertilizantes. Agora, este governo vai apertar o botão para realizar inaugurações. Inaugurar o quê? Projetos importantes que a revolução realizou.

Plaza de Acho, 1971.

Eu lhe perguntei há algum tempo, e você não respondeu: qual foi o pior defeito do seu governo? Em outras palavras, qual foi o seu maior ponto forte e qual foi o seu pior defeito?

Sua maior virtude foi ter sido o primeiro governo a lutar pela vasta maioria oprimida.

—E qual é o seu pior defeito?

O pior defeito da revolução… Bem, ela teve muitos defeitos. Porque eu estava trabalhando com pessoas que eram inimigas da revolução. Havia belaundistas, apriristas, comunistas. Tínhamos oponentes em todos os lugares, e você pode ver, meu velho, que meus ministros me traíram. Não é verdade? Eles me traíram porque me depuseram, me traíram. Isso foi uma traição…

—É verdade que três meses antes da sua queda, você chamou Rodríguez Figueroa de traidor na casa de Richer?

Não diretamente, mas indiretamente, sim.

— Você já suspeitava que algo estava acontecendo?

— Não, eu não sabia. Eu sabia que tinha havido uma reunião onde Graham e Rodríguez estavam presentes, e eles tinham falado sobre se livrar de mim. Foi na casa de Richter, sim. Enquanto as pessoas me cumprimentavam e algumas diziam: "Viva a revolução, General!", eu dizia: "Sim, velho, mas temos que ter cuidado porque há muitos traidores, muitos traidores que se reúnem, muitas pessoas ambiciosas..." Ora, ele levou isso a sério, claro que levou, porque eu estava olhando para ele.

— Qual era a sua relação com a Expreso?

O jornal "Expreso" nos defendeu. O "Expreso" defendeu a revolução peruana. Todos no "Expreso" defenderam a revolução.

- Porque?

Não sei, mas eles nos defenderam. Quando a "imprensa" nos atacou, o único jornal que se manifestou em nossa defesa foi o "Expreso". Quando o "El Comercio" nos atacou, o único jornal que se manifestou em defesa da revolução foi o "Expreso". Eles os atacaram como cães e os xingaram. Nos defenderam bravamente, nos defenderam corajosamente. Agora, eu sei que havia comunistas, claro. Havia Moncloa, Roncagliolo, havia vários, havia um grupo. Mas eles nos defenderam, cara, eles foram os únicos…

— Mas digamos que essa defesa solitária terminou quando os jornais foram expropriados…

Bem, não, porque na realidade não foi uma expropriação. Os jornais não foram confiscados para o Estado administrá-los, para o governo controlá-los como bem entendesse…

— Mas era assim e é assim que é…

Agora não sou responsável por nada. Agora está tudo uma bagunça, cara… (com Morales Bermúdez)

— Mas o senhor teve a oportunidade, em julho de 1975, um mês antes de ser deposto, de entregar os jornais às Associações Civis. Por que não o fez?

Eu não fiz isso simplesmente porque já havia uma enorme infiltração de esquerdistas nos jornais, cara. Havia comunistas e extrema-esquerda. Então, dar, digamos, o "Expreso" aos estudantes era inútil, sem sentido, porque acabaria nas mãos dos comunistas. Então, em vez de correr esse risco e entregar os jornais aos esquerdistas, aprovamos uma lei que diz: só desta vez, a distribuição fica suspensa por um ano… O objetivo era dar os jornais às organizações, às massas, aos professores, aos estudantes. Em vez de Beltrán: não, senhor, que Beltrán vá para os Estados Unidos com sua esposa americana, ele não deveria estar no comando aqui, nós, peruanos, estamos no comando aqui. Vamos ver se ele cumpre a lei…

— Suas palavras às vezes parecem expressar amargura, de modo geral…

Amargura por quê? Amargura contra o quê? Com ​​certeza, cara…

" Ele tem o melhor temperamento do mundo ", interrompesua esposa, que estava ouvindo a conversa nos últimos cinco minutos.

Meu único arrependimento é não ter concluído as transformações. Nos faltava não só saúde e experiência, mas também crédito, o sistema bancário. Não queríamos confiscar os bancos para tomar seus lucros. O que queríamos era que o Estado fosse dono dos bancos para que pudéssemos administrar o crédito com uma abordagem revolucionária. Para emprestar ao sapateiro, ao encanador, ao agricultor. "Quero quarenta mil soles?" "Aqui está, senhor." Eu queria que o banco agrícola comprasse quarenta caminhões e que esses caminhões percorressem os vales todos os dias, emprestando dinheiro. "Senhor, o que o senhor planta?" "Isto, aquilo." "De quanto o senhor precisa?" "Não quero." "Não quero?" "Sim, senhor, aqui está: enfie o dinheiro goela abaixo, aqui está." Porque com o dinheiro, as coisas melhorariam. Escute, meu velho, não havia dinheiro. Eles estavam comprando as colheitas dessas pessoas pobres por cinco anos. Essas pessoas estavam sendo enganadas, seu dinheiro estava sendo roubado… Ficamos sem tempo porque me expulsaram. Fiz o que pude. Não posso fazer mais. E veja só como me tornei…

Sim, não deixe sua pressão arterial subir. Intervenha, Dona Consuelo.

Olha só o que eu ganhei; uma perna a menos, seu doente…

Hospital Militar, 1973.

— Mas tudo tem suas compensações. Você venceu…

"O amor do povo?", pergunta Dona Consuelo, com muita ironia.

— Eu não diria isso — respondo — Você não acha que conquistou, além das paixões e quando as essências se estabilizarem, digamos, um lugar na história?

"As pessoas não poderiam ser mais ingratas", diz Consuelo. "Depois de tanta amargura, um lugar na história!"

A revolução teve o prazer de realizar as transformações que os civis não conseguiram. Os civis estiveram no governo por 150 anos e não as fizeram. Por isso, as Forças Armadas tiveram que fazer a revolução. Meu consolo é que a revolução causou alvoroço. Porque até nossos inimigos ficaram entusiasmados quando… (Velasco chora discretamente, mal conseguindo terminar) recapturamos Talara. Quando recapturamos Talara, até o próprio Ulloa tremeu … Guardo rancor de alguém…? De ninguém! Da última vez, o senhor do "Opinião Livre" veio aqui, e eu disse a ele que não queria fazer nenhuma declaração. Mas ele não queria ir embora, então o convidei a sentar. Conversamos um pouco, e então surgiu uma "entrevista" cheia de mentiras e falsidades. Que eu disse que Zimmermann fez isso e Moncloa fez aquilo. Mentira! Foi ele quem falou mal de Zimmermann e Moncloa. Eu disse a ele que não era verdade que Zimmermann devia 4 milhões de soles a algum lugar, porque eu mesma investiguei. Zimmermann devia apenas uma pequena quantia, que ele pagou imediatamente. Zimmermann não me tratou bem, mas não tenho motivos para sair por aí falando mal de ninguém. E aquele homem tentou colocar palavras na minha boca, dizendo que Zimmermann era um ladrão… É por isso que quero que ele me envie um questionário, e eu responderei por escrito…

— Você não acha que em alguns casos você foi excessivamente autoritário, rígido, despótico?

Em que caso?

— Por exemplo: deportar Armacanqui, deportar Duharte, deportar Zileri .

Eu não era Ministro do Interior... Zileri nos atacava constantemente, nos impedia, nos atrasava... O governo também precisa punir aqueles que o atacam. A revolução precisava se defender. Não ia ficar de braços cruzados enquanto lhe contavam mentiras. Então, por pura loucura, eles mesmos estavam atraindo a situação para si...

— Uma última pergunta, general: qual é, em sua opinião, a solução política para o país?

Se não houver mais revolução, então o governo militar não se justifica mais. Deveria haver um governo democrático, não é mesmo?

— Então, na prática, uma convocação de eleições?

Bem, essa é a única coisa inventada até agora, não é?
TUPAC AMARU PROMETEU
VELASCO CUMPRIU

Aliás, “nem capitalismo nem comunismo” era justamente o lema do livro azul do general Juan Velasco Alvarado, a quem ouvi pela primeira vez em setembro de 1968, quando cobria para O Paiz a VIII Conferência dos Exército Americanos, na Urca, Rio de Janeiro. Ele era ministro da guerra de Belaúnde e surpreendeu a todos com discurso que criticava a ingerência dos Estados Unidos nos países soberanos das Américas. Uma semanas depois liderou um golpe, assumindo o poder de 1968 a 1975. Expulsou e nacionalizou as empresas petroleiras americanas, criando a PETROPERU.

O livro azul reúne trechos de seus discursos, alguns dos quais escritos com assessoria de Darcy Ribeiro, exilado em Lima. Um deles, anunciando a reforma agrária, terminou com o lema do emblemático Tupac Amaru: “Campesino, el patrón ya no comerá más de tu pobreza”. Expropriou terras do latifúndio, nacionalizou mineradoras, transformou em cooperativas fazendas açucareiras, tomou os jornais de seus proprietários e os entregou às organizações sindicais. Foi derrubado por golpe do seu ministro Morales Bermudez e aí “tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes”.

Na Venezuela, Hugo Chávez, “Comandante de la Revolución Bolivariana”, editou “El Libro Azul”, um texto de 50 páginas, onde expõe sua doutrina cívico-militar. O livrinho de bolso, cuja primeira edição é de 2007, abre com a frase que Simon Bolívar gostava de citar: “Ou inventamos ou erramos”. O tenente-coronel Hugo Chávez inventou algumas vezes, errou outras, em 14 anos no poder (1999-2013). No prólogo, seu sucessor Nicolás Maduro aconselha “todo patriota venezuelano a ler o livro, que traz profecias a serem realizadas no futuro do século XXI”.
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