PENSAMENTO EDMUNDO MONIZ
Um “veterano trotskista”: Edmundo Moniz entre a política, o jornalismo e a revolução é o título da pesquisa de doutorado elaborada pelo historiador Victor Emmanuel Farias Gomes, apresentada na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), sob orientação do docente Reinaldo Lindolfo Lohn. “Este trabalho nasceu do interesse pela história da primeira geração de trotskistas no Brasil, sobretudo pelas trajetórias individuais após as rupturas ocorridas até 1940,” comenta.
Nascido em Salvador (BA), Edmundo Moniz Ferrão de Aragão (1911 – 1997), filho de Antônio Moniz Sodré, ex-governador da Bahia, foi viver no Rio de Janeiro onde teve contato com o trotskismo, ao qual se vinculou até o debate existente na IV Internacional acerca da natureza do Estado soviético, entre 1938 e 1940.
A trajetória intelectual de Edmundo Moniz, segundo o pesquisador, suscita questões que envolvem o quanto o trotskismo esteve presente – como inspiração ou recusa – em suas escolhas e posicionamentos em diferentes momentos de intervenção política, mesmo quando deixou de militar diretamente em organizações inspiradas pelo revolucionário russo. “Moniz atuou às margens de um movimento político e de uma tradição intelectual,” diz. “Com isso, quero dizer que algumas das preocupações que moveram a elaboração do da pesquisa condicionaram discussões anteriores e estão presentes em obras importantes. Entretanto, se não foi possível escrever uma história do trotskismo no Brasil da década de 1930 sem abordar centralmente os nomes de Mário Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo, há uma história das margens que está por ser feita. Nessas margens encontra-se Edmundo Moniz Ferrão de Aragão, que levou ao nível mais alto a tensão entre a formação de esquerda e o engajamento político e intelectual depois da morte de Trotsky,” reflete o pesquisador.
Para a elaboração do trabalho, Gomes utilizou como fontes artigos e matérias de jornais com sede no Rio de Janeiro, além do material escrito e assinado por Edmundo Moniz no Correio da Manhã e na revista Carioca. Ele também utilizou matérias e notícias da imprensa carioca para reconstituir os processos políticos, as crises e a dinâmica dos acontecimentos. Em menor número, foram citadas fontes da imprensa alternativa e jornais de organizações de esquerda. O autor buscou, ainda, o Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (CEMAP), custodiado no Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp.
Edmundo Moniz acompanhou as transformações do campo intelectual após a revolução de 1930 e ocupou um lugar na burocracia estatal e na imprensa diária da capital do país. Produziu uma longa série de textos para o Correio da Manhã, com o intuito de rever criticamente a trajetória da União Soviética, alertar sobre as consequências do domínio do capitalismo de Estado para o mundo e denunciar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a representação política dessa tendência no Brasil. “O rompimento com as teses de Trotsky sobre a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) permitiu que Moniz se transformasse no mais dedicado intelectual de esquerda a realizar uma crítica antistalinista radical, muitas vezes, levando-o ao exagero, à indiferenciação com o anticomunismo, que vicejava durante a Guerra Fria, e aos prognósticos que não se confirmaram,” cita Gomes.
Para o pesquisador, os projetos para construir organizações de esquerda, baseadas na crítica severa aos trabalhistas e pecebistas, tampouco prosperaram e Moniz ficou quase uma década tendo apenas o Correio da Manhã como meio de intervenção política. “O primeiro movimento do arrefecimento das críticas ao PCB e ao PTB ocorreu na segunda metade da década de 1950, quando os partidos apoiaram o seu candidato à presidência, Juscelino Kubitschek. Além disso, a morte de Stalin inaugurou um processo de recomposição da camada dirigente da União Soviética que empolgou o historiador Isaac Deutscher e seu leitor, Edmundo Moniz”.
Desse modo, comenta Gomes, o chefe de redação que coordenou a preparação dos editoriais de 31 de março e 1º de abril de 1964 já não era o militante dos anos 1940, temeroso do domínio da forma mais avançada do capitalismo supostamente desenvolvida na Rússia. A deposição de João Goulart levou o jornalista para a oposição organizada em torno do ex-presidente, por dentro e por fora da via partidária existente. Foi parte importante da frente intelectual de combate à ditadura e soube se adaptar às condições que limitavam a atuação da oposição, praticando a articulação política a portas fechadas e a arte da conspiração. Virou amigo de Jango e companheiro de luta dos trabalhistas.
Nos últimos anos escrevendo para o Correio da Manhã e acompanhando o crescimento da publicação de obras marxistas no Brasil, Moniz havia abandonado suas teses sobre o capitalismo de Estado e a URSS, ensaiando um caminho de retorno à obra de Trotsky, percurso concretizado na década seguinte. O regresso a Trotsky, entretanto, não foi uma volta ao trotskismo e suas correntes. “Moniz estava convencido da necessidade de constituir um partido de massas, que buscasse o elemento original da revolução brasileira. Nesse sentido, a proximidade com os trabalhistas indica uma aposta na retomada da força que o PTB detinha antes do golpe e do papel que lideranças, como Brizola, poderiam exercer junto aos trabalhadores. Prognóstico que, não obstante as vitórias do PDT no Estado do Rio de Janeiro, não se confirmaram nacionalmente”.
“Moniz morreu em 1997, depois de uma vida de duras batalhas, e era chamado, pelos companheiros do PDT, de “o último trotskista”. Suas opções, para quem tem o privilégio de conhecer o desfecho dos processos históricos, podem parecer incompreensíveis, mas expressaram a complexidade do campo político, a urgência demandada pelos acontecimentos e a paixão na defesa das suas ideias,” conclui o pesquisador.
CEDEM
On-line: www.cedem.unesp.br
Presencial: Sede do Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp
1964: ENTREVISTA
Depoimento de EDMUNDO MONIZ
ao repórter Gilberto Negreiros
No dia 3 de abril de 1964, após longa discussão que envolveu o corpo de redatores e a diretoria, Edmundo Moniz viu publicado, na primeira página do "Correio da Manhã", o editorial "Terrorismo Não", de sua autoria. O velho "Correio", expoente da imprensa liberal que deixou de circular em 1975, 48 horas antes, havia saído com outro editorial. "Fora" no qual Edmundo Moniz afirma ter apenas colaborado —onde pedia a deposição do presidente João Goulart.
Com o segundo editorial, o "Correio da Manhã", surgia como voz discordante no meio das comemorações da vitória do movimento militar de 64, para, logo em seguida, tornar-se opositor intransigente do caráter autoritário que se acentuava no novo regime. A partir de abril de 1964, o "Correio" iniciava também um processo de agonia. O liberalismo inflamado, que em outros tempos fizera a glória do jornal carioca, logo seria tornado impotente diante do AI-5.
Essa fase foi vivida por Edmundo Moniz, primeiro como chefe de redação e depois como articulista. Em 1968, antes mesmo do AI-5, foi envolvido num processo na Justiça Militar, sob a tríplice acusação de ser membro da organização Resistência Armada Nacionalista, trotskista e, ao mesmo tempo, filiado ao Partido Comunista Brasileiro. "Não sei até hoje como conseguiram juntar essas acusações", comenta Edmundo Moniz.
Entre tantas atribuições, esse processo lhe custaria um período de exílio que se estendeu de 1969 a 1976, quando retornou ao Brasil já absolvido e o desaparecimento de várias cartas que lhe foram escritas pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, após 1964.
"Foi logo depois do AI-5. Eu estava com prisão preventiva decretada e eles vieram me procurar em casa. Não me encontraram, mas revistaram tudo e apanharam as cartas. Não sei que fim deram a elas pois não apareceram como peça do processo. Numa das cartas, que me impressionou muito pela visão que Juscelino demonstrou, ele mostrava que não pode haver democracia sem anistia".
*
O "Correio da Manhã", em 1961, liderou uma campanha da grande imprensa pela posse de João Goulart. Três anos depois, o jornal esteve na liderança de outra campanha, pela deposição de Goulart. Não há uma incoerência nessa atitude, da qual os fatos marcantes foram os dois editoriais, o "Fora" e o "Basta" (1)?
Edmundo Moniz — Eu não vejo nenhuma incoerência nas duas atitudes do "Correio da Manhã". Para mim, uma completa a outra. O "Correio" foi sempre um jornal tradicionalmente favorável à liberdade democrática. Era um jornal conservador mas liberal e, sobretudo, defensor do respeito à Constituição. Isso não quer dizer que esse respeito fosse absoluto porque, muitas vezes, eram as próprias exigências políticas que forçavam a tomada de uma posição que nem sempre constituiu o exato cumprimento da Constituição, quando estava em jogo o regime. Nós temos que examinar os fenômenos políticos não num sentido absoluto, mas num sentido dialético, com as suas contradições. O "Correio da Manhã" defendia o regime democrático, defendia a Constituição, embora não de uma maneira absoluta, não como um dogma. Este era o ponto de vista, historicamente falando, que eu veria na posição do jornal.
O "Correio da Manhã defendeu essa posição e isto lhe custou até o fechamento por dois ou três dias.
Por ordem de quem?
Edmundo — Por ordem do governo do Estado da Guanabara, do Carlos Lacerda. Pelo menos era a ele que se atribuiu o fechamento na época, porque havia uma espécie de caos, praticamente o país não tinha governo e, na Guanabara, quem governava era o Carlos Lacerda.
Mas, o "Correio da Manhã" reabriu com as mesmas posições e defendeu a posse do Jango. Defendeu o Parlamentarismo, desde quando o Parlamentarismo foi votado pelo Congresso, embora a posição do "Correio da Manhã", teoricamente, fosse antiparlamentarista, ou melhor, o "Correio da Manhã" defendia o presidencialismo.
Recolocada a questão das chamadas Reformas de Base, como se situou o "Correio da Manhã"?
Edmundo — O "Correio da Manhã" defendeu as Reformas de Base, sobre tudo a reforma agrária. Evidentemente que o "Correio" sendo um órgão liberal, nem sempre as idéias dos colaboradores favoráveis à reforma agrária e as do jornal coincidiam.
Quando se deram divergências entre a direção do jornal e os colaboradores, como foi solucionado o problema?
Edmundo — Nunca houve divergência entre os colaboradores e o jornal porque o jornal dava liberdade plena aos seus colaboradores, desde que assinassem os artigos e desde que não fosse uma posição frontalmente oposta a do jornal. Quer dizer, se viesse um colaborador pedir a dissolução do Congresso, fechamento da imprensa, evidentemente aí haveria um choque entre os colaboradores e a direção do jornal. Evidentemente, a direção do jornal não consentiria em uma coisa dessas.
Mas, em suas linhas gerais, o "Correio da Manhã" sempre acolheu as colaborações dos mais diversos representantes das ideologias políticas e sociais. Nunca o "Correio" tomou uma posição dogmática contra essa ou aquela tendência. Ao contrário, vários elementos de esquerda colaboraram com o jornal. O José Oiticica (2), durante muitos anos, colaborou, defendendo os seus pontos de vista. E o "Correio" não era anarquista, pelo contrário, era contra o anarquismo, que achava uma utopia. Mas não impedia que um dos seus colaboradores escrevesse defendendo essa utopia.
A partir de quando o "Correio da Manhã" acentua a posição crítica em relação a João Goulart?
Edmundo — Ele foi sempre um jornal de oposição. Nunca o "Correio da Manhã" se atrelou ao carro do governo. Ele defendeu a posse do Juscelino Kubitschek, em 1955, e, entretanto, não era um jornal que apoiasse o governo do Juscelino. Ele criticou vários pontos desse governo e, muitas vezes, com muita energia e com muita severidade. O fato de ser favorável à posse de Juscelino não queria dizer que fosse o jornal do Juscelino, o jornal do governo.
Mas, há quem diga que essa relação entre o "Correio da Manhã" e o governo JK foi o começo do processo de decadência, porque o "Correio da Manhã" se atrelou e perdeu a combatividade a partir desse momento.
Edmundo — Ao contrário, o "Correio da Manhã" nessa época manteve a maior independência política. Inclusive, o "Correio" combateu a construção de Brasília, combateu vários ministros do governo de Juscelino. O próprio Lott (3), que o "Correio" tinha apoiado quando depôs o Café Filho e o Carlos Luz, o próprio Lott moveu uma ação judicial contra o "Correio da Manhã", porque ele estava atacando alguns aspectos da administração do Lott, que era a figura forte do governo de JK. Nessa época, o "Correio" acolhia, com muita simpatia, a UDN, que era um partido adversário de Juscelino. E, nas eleições presidenciais, o "Correio" não tomou uma posição ao lado de Juscelino. Ficou numa posição de equidistância, embora simpáticos ao Juscelino, mas não de apoio integral.
Portanto, não há decadência do "Correio da Manhã". Ao contrário, foi uma posição profundamente coerente com as suas tradições e com a sua ideologia natural.
Voltando àquele período do governo João Goulart. A partir do momento em que surge em cena o trabalhador mobilizado, através da CGT (4), surgem as greves. Como o "Correio da Manhã" reagiu a isso?
Edmundo — Ele reagiu de maneira racional. Apoiou muitas greves e combateu muitas outras. Mas, a posição do "Correio" foi sempre de respeito ao direito de greve.
Sobre a crise de 1961 (5), o "Correio da Manhã" foi surpreendido? Não só o "Correio", mas a grande imprensa foi surpreendida com a renúncia de Jânio?
Edmundo — Foi. Eu acho que não houve ninguém no Brasil que não se surpreendeu com isso. Até os próprios companheiros do Jânio. Não houve sinais anteriores. Até o José Aparecido (6) se surpreendeu com a renúncia ou com a idéia da renúncia.
O Aparecido era...
Edmundo — Era o homem mais ligado ao Jânio naquela época, ou um dos mais ligados. E até ele se surpreendeu. Quer dizer, a renúncia do Jânio Quadros representou uma surpresa nacional.
A posição dos três ministros militares contra a posse de João Goulart, pretextando as vinculações dele com o comunismo, foi surpresa?
Edmundo — Não poderia ser surpresa nem não surpresa. Foi uma coisa que aconteceu. O "Correio" não imaginava que os ministros militares fossem combater o Jango Goulart porque ele era comunista. Evidentemente, achava isso uma insensatez, porque o Jango podia ser acusado de qualquer coisa, menos de comunista. Era uma manobra militar e política que o "Correio" não poderia aceitar.
Isso não apresentou como uma manifestação de uma minoria que, apesar de estar na cúpula do Exército, utilizava uma manobra para trazer as Forças Armadas para um tipo de golpismo?
Edmundo — Em primeiro lugar, o "Correio da Manhã" nunca foi um jornal anticomunista. Pelo contrário, defendeu a legalização do Partido Comunista e combateu o Dutra (7), quando ele propôs a ilegalidade do partido. E não só o "Correio da Manhã", a UDN também foi contra. O "Correio" não tinha nenhuma posição preconceitual contra o se chamar fulano de comunista, porque ele sempre encarou isso de um ponto de vista doutrinário.
Durante a crise de 61, a posição dos ministros militares, que era basicamente a do marechal Denis (8), divergia muito da posição do Exército, encarnada pelo marechal Lott.
Edmundo — Eu acho que havia uma contradição profunda dentro do Exército e dentro do próprio Denis, porque o Denis sustentou a posse do Juscelino e do Jango e, se sustentou a posse do Jango como vice-presidente, sustentou a possibilidade de o Jango ser o presidente, no caso do Juscelino renunciar ou se afastar do governo. Depois, ele voltar-se contra o Jango para impedir sua posse, com a renúncia de Jânio Quadros, é uma contradição.
Sim, mas ele expressava...
Edmundo — Ele expressava um bloco definido de direita que, mais tarde, cada dia foi mais se aproximando desse golpe. Mas, eu não sei qual foi o processo psicológico ou político que o levou a se tornar um líder anticomunista no sentido militante do termo. Mas, evidentemente, há uma contradição entre a posição dele em 61 e em 55. Há uma contradição profunda, mas dentro do Exército sempre houve tendências. Sempre houve uma tendência democrática e sempre houve uma tendência direitista. Eu não sei como a facção direitista atraiu o general Denis para as suas posições mas, evidentemente, ele acabou se manifestando ao lado da direita do Exército.
Tanto havia uma parte do Exército que era democrática, que muitos militares de real valor, de real significação, foram depostos, reformados e afastados do Exército em 1964. O expurgo nas Forças Armadas, no Exército, na Aeronáutica, na Marinha, demonstra muito bem a divisão existente, a existência de duas posições definidas, uma democrática, outra antidemocrática.
Agora, vamos correr no tempo e chegar ao período 63/64.
Edmundo — Da mesma forma que o "Correio da Manhã" não se atrelou ao carro do governo do Juscelino, também não se atrelou ao carro do João Goulart.
De uma certa forma, o "Correio" apoiou o plebiscito (9) e a restauração do presidencialismo, que coincidia com os pontos de vista de João Goulart. Defendeu as reformas de base, o que coincidia, também, com os pontos de vista de João Goulart. Mas isso não quer dizer que estivesse atrelado ao carro do governo, que fosse um jornal governista.
O "Correio" combatia os atos administrativos de Jango, os aspectos da sua política econômica, financeira, aquilo que o "Correio" achava que estava errado. E também apoiava o que coincidisse com seu ponto de vista.
Então, houve uma crise muito grande em todo o país, uma crise que atingiu as Forças Armadas, o empresariado, o proletariado. O próprio Goulart viveu horas difíceis, com a insurreição dos sargentos, que não era nem pró, porque era contra ele, e que não era propriamente feita pelos inimigos dele. Ao contrário, os inimigos não aceitavam aquela revolta dos sargentos. Depois do golpe de 64, ainda tinha sargento preso por causa da insurreição que houve em Brasília para depor o governo.
Quando da queda de Goulart, o "Correio da Manhã" não se colocou ao lado de nenhum bloco com a imprensa anti-João Goulart. O "Correio" ficou numa posição independente, sem compromisso com nenhum outro jornal, sem compromisso com o João Goulart, sem compromisso com a UDN, sem compromisso com os militares. O "Correio" estava numa posição definida, de acordo com o que ele sempre seguiu. Estava fiel a si próprio.
Mas, o "Correio da Manhã", de repente, foi surpreendido, ou encontrou-se, diante de uma crise política, diante de uma crise militar. Então, o "Correio" defendeu uma atitude própria, que o Jango tomasse certas medidas como presidente da República, para normalizar a situação, para superar a crise. Que ele, como presidente da República, devia dar um basta àquela situação de crise inequívoca.
Ao mesmo tempo, nesse mesmo artigo, defendia a continuação de João Goulart até o fim do seu mandato.
Sim, mas parece que o "Basta" foi no dia 31 e o "Fora" no dia 1o.
Edmundo — O "Fora" foi consequente da posição do João Goulart, porque desde que ele abandonou o governo, desde que saiu ou estava disposto a sair, o "Correio da Manhã" passou a defender uma posição legalista, que era a da posse do Ranieri Mazzilli (10).
Mas quando o artigo "Fora" saiu, pela manhã, o João Goulart ainda se encontrava aqui no Palácio Laranjeiras.
Edmundo — Já estava praticamente deposto...
Conta-se que ele, quando pegou o jornal e viu o artigo, teria comentado com desalento: 'Olha o que o "Correio da Manhã' está dizendo aqui".
Edmundo — No dia 31, o Jango já se preparava para abandonar o governo. Foi diante de um fato consumado que o "Correio" defendeu a sucessão legal. Porque na véspera ele tinha defendido a continuação de Jango. E se Jango tivesse reagido e defendido o regime, acredito que o "Correio" teria defendido a posição constitucionalista e o próprio Jango. Como mais tarde se manifestou contra o regime que foi instaurado. Porque o jornal tem que se manifestar diariamente diante do acontecimento e tem que ter uma saída para aquela situação.
O que o "Correio da Manhã" propunha ao presidente da República?
Edmundo — Propunha precisamente uma normalização da situação. Havia uma crise militar, decorrente da Revolta dos Marinheiros, de vários acontecimentos políticos, uma crise que não foi inventada pelo "Correio"; ele também se viu no redemoinho da crise, como todo o País se viu. O próprio "Correio" advertia o Jango para o perigo de uma ditadura militar, de uma vitória da direita.
Você é autor dos dois editoriais "Basta" e "Fora"?
Edmundo — Não, eu tive conhecimento do jornal, eu só sou autor daquilo que eu assino, quer dizer, defendi essa posição que estou aqui manifestando. O artigo foi feito pela redação e eu não posso dizer o autor dos artigos, eles são de responsabilidade do jornal. Aqueles dois editoriais foram muito alterados, talvez fossem escritos por muita gente. Não escrevi o artigo, mas o alterei. Toda a redação mexeu.
Quando o "Basta" foi escrito, já se sabia da movimentação da coluna do general Mourão Filho (11)?
Edmundo — Já, já, já. Não sei se já se sabia da movimentação do Mourão, mas havia várias manifestações militares contrárias ao governo. Então chegou o momento em que o jornal lançou o "Basta". E depois o "Fora", defendendo a restauração da legalidade, como o havia feito em 1955. Defendeu a ascensão natural de Mazzilli, que, depois de assumir o governo, baixou as regras das eleições que deveriam ser feitas pelo Congresso. Regras essas que foram modificadas pelo governo militar, porque o Ato Institucional não foi assinado pelo Mazzilli, foi assinado por uma Junta Militar, que se compôs aqui no Rio. E também o ato que criava a desincompatibilização foi insurrecional, porque o Castelo Branco era o chefe do Estado-Maior do Exército, que era inelegível. Então foi anulada a inelegibilidade, para que o Castelo assumisse, fato que o "Correio" combateu.
O "Correio" sabia da existência desses conspiradores, a nível de direção do jornal?
Edmundo — Evidentemente, mas a direção do jornal estava preocupada com a defesa do regime, da Constituição, do Congresso. O jornal estava temendo elementos extremados, dentro do governo, mais propício para um golpe tipo Estado Novo, e temendo que os militares dessem um golpe para estabelecer uma ditadura. O "Correio" não tinha nenhuma ligação com os conspiradores e manifestava-se contra a insurreição de Mourão, como também não tinha nenhum compromisso com o João Goulart.
Era uma posição isolada até certo ponto; às vezes, a "Última Hora" coincidia com o "Correio". Quando o "Correio" começou a escrever os artigos contra o Ato Institucional, contra o terrorismo do governo, contra a violação das liberdades democráticas, contra as cassações, a "Última Hora" publicava na primeira página os artigos do "Correio" que ela não queria, ou não podia dizer. A "Última Hora" acabava de ser empastelada e, então ameaçada, publicava os artigos do "Correio". Mas o "Correio" não coincidia com a posição de "O Globo" nem com a do "O Estado de São Paulo", ou do "Jornal do Brasil". O "Correio" não entrou em bloco nenhum a favor do movimento de 64, pelo contrário, ele ficou neutro. O desejo era que tudo se realizasse diferente do que aconteceu. Então, às vezes, a aparente imprecisão do jornal. Aparente, porque tinha de examinar os acontecimentos e tomar posições imediatas, às vezes acontecimentos que surgiam fora de qualquer prognóstico.
Nunca o "Correio" acreditou nos compromissos democráticos da chamada Revolução. Tanto assim que, durante muito tempo, o "Correio" só falava em Revolução entre aspas. Porque a posição do jornal é que se tratava simplesmente de um golpe militar. Então, toda a tecnologia do "Correio" é baseada num combate à ditadura militar.
Seus dirigentes sofreram ameaças e pressões, mas a disposição do "Correio", sobretudo a de Niomar (12), era a de manter o jornal de acordo com o que ele sempre havia se mantido: Fiel à memória de Paulo Bittencourt (13).
O governo não se decepcionou com o "Correio da Manhã"?
Edmundo — Para ele se decepcionar é porque verificou que o "Fora" e o "Basta" tinham uma significação diferente da que ele havia interpretado. E isso levava a uma confusão. Também Jango surpreendeu-se naturalmente com os artigos que ele achou que era contra ele e depois deveria ter-se surpreendido com a posição do "Correio" contra os militares. Mesmo quando eu dirigia o "Correio da Manhã", a minha opinião era divergente, muitas vezes, da posição do "Correio". Ele tinha uma linha, eu outra. Mas isso não quer dizer que eu não compreenda a posição democrática e liberal do jornal.
Um dos diretores foi convocado ao Ministério da Guerra para depor?
Edmundo — Nunca houve isto, houve visita de militares ao "Correio da Manhã" para conversar sobre a situação política e o jornal sempre os recebeu com toda a cordialidade, porque era um governo constituído legalmente, não vou dizer legitimamente. Eles, naturalmente, queriam que o "Correio" desse um apoio ao governo e que tomasse posições contra a oposição. E o "Correio" não estava disposto a dar um apoio absoluto a esse regime, embora muitas vezes o jornal tivesse elogiado, eu não me lembro agora qual tenha sido, ato do novo governo. Se a ditadura militar teve o apoio, numa ou noutra posição, do "Correio", isto foi causado precisamente pela independência que o jornal sempre teve nas questões políticas.
Quando o "Correio" se tornou um jornal de oposição ao regime, ele aumentou muito a circulação. Às vezes de 50 mil exemplares, enquanto a tiragem normal era de 70 a 80 mil. Nunca houve a queda de assinaturas, sempre em torno de 25 a 30 mil.
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