quinta-feira, 27 de março de 2025

PENSAMENTO INTERNACIONAL COMUNISTA * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

 PENSAMENTO INTERNACIONAL COMUNISTA

CARTA DO SECRETARIADO DA I.C. PARA A AMÉRICA DO SUL

E CENTRAL AO C.C. DO P.C. DO BRASIL

[Manuscrito:] Kommentarien zur Resol. der Pol. Komm. am 27. IV. 1933 г.

I.

1 ‒ A situação semicolonial do Brasil, seu papel de apêndice agroprimário dos países capitalistas desenvolvidos e o predomínio dos resquícios feudais e escravistas em sua organização socioeconômica determinaram a profundidade e a amplitude consideráveis da crise econômica que assola o país. Justamente esses fatores fizeram também com que o nível de vida das massas trabalhadoras caísse assustadoramente, chegando abaixo do necessário à sobrevivência, no que concerne a amplas camadas da classe operária e do campesinato. Ao mesmo tempo, é exatamente a situação semicolonial do Brasil e a competição anglo-americana pelo “direito” de monopolizar sua exploração que conduzem, no seio das classes dominantes, às mais agudas formas de lutas grupais, incluindo a guerra e a sublevação. A supressão da revolta de 1932 em São Paulo de forma alguma indica que arrefeceram as contradições entre o bloco burguês-latifundiário paulista e a camarilha governante de Vargas, ao mesmo tempo em que tem se agravado as contradições dentro da própria camarilha de Vargas, portadoras da perspectiva de novos conflitos e golpes.
Para incrementar o movimento revolucionário e para que ele atraia com ímpeto as mais amplas massas e as faça destruir o domínio burguês-latifundiário nas diversas regiões do Brasil, têm surgido condições objetivas cada vez mais favoráveis.

2 ‒ Além disso, justamente o atraso semicolonial do Brasil – seu débil desenvolvimento industrial, o baixo nível material e cultural da classe operária e um movimento operário sem tradições marxistas e com fortíssimas influências pequeno-burguesas, particularmente anarcossindicalistas ‒ determinou a extraordinária fraqueza do PC e seu atraso em relação às possibilidades revolucionárias objetivas surgidas no cenário de crise e de fim da estabilização capitalista. Apesar de alguns êxitos do Partido Comunista do Brasil em diversos campos de atuação, ele não soube superar no essencial as tradições pequeno-burguesas predominantes no movimento operário brasileiro. De fato, as diretivas da carta de 1930 ao PCB, bem como toda uma série de instruções e cartas do Bureau Sul-Americano do CEIC, não saíram do papel, não foram levadas às bases nem basearam qualquer reestruturação do trabalho partidário. Na verdade, o Partido ainda não superou os longos anos que caracterizaram sua formação inicial: por sua informidade ideológica e porosidade organizacional, por sua infestação por elementos de classes estranhas, pela fraqueza de seus quadros dirigentes, pela extrema insuficiência de suas ligações com as amplas camadas de trabalhadores urbanos e rurais, pela incompletude ou mesmo ausência de toda uma gama de setores importantíssimos de atuação partidária ‒ por tudo isso o PCB, no atual momento, não está em condições de aproveitar plenamente as possibilidades revolucionárias objetivas excepcionalmente favoráveis, nem de comandar as massas trabalhadoras, principalmente o proletariado, sequer no curso de suas lutas mais iminentes ou já desencadeadas contra a ofensiva do capital, a reação política e o perigo da guerra, sem já falar na luta pelos objetivos fundamentais da revolução antifeudal e anti-imperialista. Na maioria dos casos o Partido tem permanecido à margem da luta econômica e política de massas, não a desencadeando nem a liderando, e ainda não tem atuado na arena da luta de classes do Brasil como um protagonista ativo que organize, comande e guie as massas. Por isso, a luta das massas trabalhadoras cada vez mais radicais tem ocorrido principalmente na forma de ações espontâneas e desorganizadas que, no mais das vezes, terminam derrotadas. Uma parte significativa da classe operária, bem como do campesinato, tem caído sob a influência de um ou outro de nossos adversários ‒ socialistas, anarcossindicalistas, ex-prestistas e outros ‒ que escondem sua essência contrarrevolucionária com manobras “de esquerda” mais ou menos avançadas. Somente o fortalecimento do PCB e sua transformação num verdadeiro Partido bolchevique, intimamente ligado às massas e que organize e lidere suas lutas econômicas e políticas, podem garantir êxito no aproveitamento das possibilidades objetivas favoráveis à vitória da revolução.

3 ‒ A situação política geral do PCB se caracteriza atualmente pelos seguintes traços: o Partido ainda está longe de ser um verdadeiro Partido bolchevique, de assimilar a teoria marxista-leninista e nela basear sua prática política, de alcançar a independência ideológica em relação às classes dominantes e de desligar-se com suficiente clareza das teorias das classes estranhas e inimigas. Algumas camadas do Partido ainda não se livraram do peso das ideias anarcossindicalistas, prestistas, trotskistas e outras, que se apresentam ora num formato direitista abertamente oportunista, ora encobertas por um palavreado “de esquerda”. Por conta da crise do movimento revolucionário pequeno-burguês no Brasil, o Partido Comunista constituiu, até recentemente, um centro de atração de diversos elementos pequeno-burgueses que frequentemente conservavam ligações diretas com as camarilhas burguesas-latifundiárias dominantes e traziam para as fileiras comunistas influências de classes estranhas, as quais engendraram uma série de distorções na linha partidária prática.

Os desvios de direita mais perigosos se manifestam, sobretudo: na “teoria” segundo a qual o proletariado deve renunciar à luta pela hegemonia da revolução democrático-burguesa e ceder o papel dirigente da revolução à burguesia e à pequena burguesia (“teoria” de Astrojildo, Brandão e outros); nos esforços para impedir que o Partido atue como força independente na atual luta política (a palavra de ordem “primeiro se organizar, e depois lutar” de Cazini, e sua proposta e de outros de que A Classe Operária se abstivesse de publicar artigos políticos, limitando-se apenas à correspondência operária etc.); nos esforços para limitar as tarefas do movimento sindical revolucionário à mera luta econômica; no tratamento da FJC como uma “organização de frente única que deve congregar os jovens trabalhadores de todas as orientações políticas”; nas atitudes conciliatórias e capitulacionistas perante estes ou aqueles agrupamentos burgueses-latifundiários (a “teoria do mal menor” com relação a Miguel Costa em São Paulo, com relação aos tenentistas e mesmo a Vargas no Rio, no período da “guerra civil”) etc. Todas essas “teorias”, que têm seu fundamento lógico na ideia completamente oportunista de Astrojildo e outros sobre a “revolução proletária que amadurece à sombra da revolução pequeno-burguesa”, estão muito estreitamente ligadas à prática oportunista dos “compromissos” e “conciliações” com diversas correntes “de esquerda” do campo burguês-latifundiário contrarrevolucionário – trotskistas, ex-prestistas que agora se tornaram um sustentáculo do domínio burguês-latifundiário etc.
Os desvios de esquerda se manifestam: na superestimação do grau de amadurecimento da situação revolucionária (a palavra de ordem da criação de sovietes camponeses em São Paulo); na recusa em aplicar a tática da frente única pela base e em lutar por reivindicações parciais; na escamoteação da importância de se unir ao campesinato; na subestimação da questão nacional; nas tendências sectárias e golpistas; na passividade e no “neutralismo” semianarquistas nos momentos de aguçamento da luta entre as camarilhas burguesas-latifundiárias pelo poder; na subestimação da importância dos recursos legais (a palavra de ordem do “boicote à Constituinte”) etc. Todas essas atitudes esquerdistas, reflexos da influência pequeno-burguesa sobre o Partido Comunista, na verdade escondem a passividade oportunista no tocante ao trabalho persistente e sistemático de mobilização e organização das amplas massas trabalhadoras urbanas e rurais sob a bandeira do PCB.

II.

1 ‒ A DEBILIDADE DOS QUADROS DIRIGENTES DO PARTIDO.

 Esses quadros dirigentes se compõem, em grande parte, de elementos não proletários ou há muito tempo inativos, que ainda não assimilaram os fundamentos da teoria marxista-leninista ou se encontram até mesmo, em maior ou menor grau, sob a influência de ideologias estranhas, muitos deles sendo contaminados pelo espírito do sectarismo e da politicagem e uns tantos até mesmo ligados direta ou indiretamente a diversos agrupamentos oposicionistas e renegados ou a aventureiros e demagogos “de esquerda” do campo das classes dominantes, tais como Miguel Costa. Apenas há pouquíssimo tempo tem começado a cristalizar-se um grupo dirigente que, embora ainda não tenha se livrado da hesitação e da vacilação numa série de questões políticas, mesmo assim tem se esforçado sinceramente em executar uma linha política bolchevique e, portanto, pode futuramente, com a condição de uma autocrítica decidida e com base numa reestruturação radical de todo o trabalho partidário, tornar-se o núcleo sólido e sadio de um PC do Brasil bolchevique.
As tarefas no sentido de fortalecer e sanear os quadros dirigentes só podem ser cumpridas com êxito na base da participação do Partido como força dirigente nas lutas econômicas e políticas de massas, forjando e verificando os quadros não somente no curso das discussões intrapartidárias, mas também, e acima de tudo, das lutas de massas. As tarefas mais urgentes do Partido nesse campo são:
a) orientar-se decididamente rumo à proletarização dos quadros dirigentes, com a condição de manter a melhor parcela da velha liderança e sem empregar métodos mecânicos ou fictícios no processo, entre eles o de aproveitar, nos comitês, “operários” já há muito inativos; além disso, deve-se prestar especial atenção ao aproveitamento e à promoção de camaradas que tenham se mostrado bons dirigentes de massas no curso das lutas econômicas e políticas do proletariado;
b) organizar um estudo marxista-leninista sistemático para os quadros ativos (realizar cursos de curta duração para os ativos, publicar literatura marxista-leninista em língua portuguesa, enviar uma série de ativistas para as escolas de formação dos Partidos Comunistas irmãos – especialmente o argentino[1] ‒ etc.);
c) afastar decididamente dos postos dirigentes todos os membros que estejam realizando um trabalho sectário e excluir do Partido todos os indivíduos ligados a correntes políticas estranhas e inimigas; além disso, é indispensável conseguir esclarecer todos os membros do Partido, de modo sistemático e profundo, sobre a essência antipartidária e contrarrevolucionária desses elementos, evitando ao máximo afastá-los mecanicamente sem desmascará-los com justeza aos olhos dos membros do Partido, como ocorreu, por exemplo, no caso de Astrojildo.

2 ‒ A POROSIDADE E A INFORMIDADE DO CONJUNTO DA ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA.

Em vários casos, as organizações partidárias só existem no papel, quase não revelando nenhuma manifestação prática. As células estão isoladas das massas e não têm existência própria, e as frações sindicais, na maioria dos casos, não saíram do papel. A imprensa partidária publica com extrema irregularidade, e por enquanto não pode sequer aspirar minimamente ao papel de “organizador coletivo” que dá coesão e forma ao Partido, papel que a imprensa bolchevique da Rússia já desempenhava nos primeiros tempos do desenvolvimento do bolchevismo. O PC do Brasil, na verdade, ainda não existe como um Partido realmente nacional, com dirigentes vindos de todas as partes, e a ligação entre seus diversos setores se destaca por sua extrema fragilidade (débil ligação entre o CC e os CRs, e entre os CRs e o aparelho de bases; isolamento entre os comitês do Partido e as massas partidárias em geral; discrepância entre as atuações desses comitês e das frações partidárias nos sindicatos e em outras organizações de massas etc.). Existe no Partido uma série de agrupamentos isolados mais ou menos fechados que se opõem ao conjunto da militância nesta ou naquela questão ou até a toda a linha político-partidária, que por vezes intrigam contra o Partido e se ligam a elementos contrarrevolucionários abertamente inimigos, tais como trotskistas, diversos aventureiros e demagogos “de esquerda” das classes dominantes etc. A disciplina partidária é extremamente débil, ocorrendo inúmeros casos de insubmissão direta às decisões dos órgãos dirigentes e casos ainda mais numerosos de silêncio e desprezo a suas instruções.

As tarefas do Partido no sentido do fortalecimento do conjunto do aparelho partidário só podem ser resolvidas no imediato com a condição de concentrá-las, antes de tudo, em algumas regiões essenciais ‒ tais como os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco ‒, onde devem ser reunidos os melhores organizadores, agitadores, propagandistas e literatos do Partido, mesmo com prejuízo às regiões restantes. As organizações dessas regiões também devem ser fortalecidas com membros do Comitê Central a serem distribuídos entre as regiões onde o Partido concentrará sua atenção principal, mantendo-se no centro apenas um pequeno grupo de camaradas absolutamente indispensáveis.

É evidente que o fortalecimento e o saneamento organizativos do Partido só podem ser alcançados com a condição dele participar o mais ativamente possível como força dirigente nas lutas econômicas e políticas de massas. Tem um caráter completamente oportunista a “teoria” que circula em algumas camadas do Partido e era defendida particularmente por Cazini, segundo a qual o Partido deve “primeiro se organizar, e depois lutar”. Somente no próprio curso da luta de massas e com base no estudo e na assimilação de sua experiência por todos os membros do Partido é que se torna possível um real fortalecimento das organizações partidárias.

Por outro lado, o fortalecimento do Partido pressupõe o mais amplo desencadeamento da autocrítica de baixo para cima, ligada a um minucioso debate, por toda a massa de membros do Partido, de todas as tarefas postas diante deles, ao balanço detalhado e à correção dos erros cometidos, à constante autoverificação no curso das lutas de massas e ao fortalecimento da disciplina partidária.

3. O PARTIDO AINDA NÃO APRENDEU A MANEIRA BOLCHEVIQUE DE COMBINAR OS MÉTODOS LEGAIS E CLANDESTINOS DE ATUAÇÃO. 

Por um lado, em algumas camadas do Partido, existem tendências “legalistas”, oportunistas de direita, que representam, na atual etapa, o perigo principal e que se expressam particularmente nos intentos de “aproximar-se” de diversos aventureiros e demagogos “de esquerda”, tais como Miguel Costa, e, dessa forma, garantir para si uma saída para a “ampla” arena das intrigas políticas mais ou menos “legalizadas”. As tendências “legalistas” também se expressam na subestimação do significado decisivo do aparelho partidário ilegal na atual etapa, na recusa em tomar medidas sérias e sistemáticas de luta contra os provocadores etc. Por outro lado, o Partido não tem lutado amplamente para aproveitar as possibilidades legais com objetivos revolucionários, criando para si, dessa forma, dificuldades para tornar-se um legítimo Partido de massas (subestimação da atuação nos sindicatos legais, indicação da palavra de ordem de boicote às eleições para a Assembleia Constituinte por alguns camaradas, recusa em utilizar editoras burguesas para publicar obras de Marx, Engels, Lênin e Stálin sob o pretexto de que isso seria “moralmente inadmissível” etc.).
Aproveitando ao máximo todas as possibilidades legais disponíveis, o Partido deve, ao mesmo tempo, prestar a mais séria atenção às tarefas de fortalecimento e saneamento do aparelho clandestino, afastando decididamente todos os elementos desconfiáveis e garantindo, em primeiro lugar, a ligação das regiões essenciais entre si e com os órgãos dirigentes. É de particular importância garantir o fornecimento mais sistemático possível de livros às organizações partidárias brasileiras, tanto os editados legal ou clandestinamente dentro do país quanto os editados no exterior.

4 ‒ A LIGAÇÃO INSUFICIENTE ENTRE O PARTIDO E A CLASSE OPERÁRIA.

Enquanto não houver uma ligação firme entre o Partido Comunista e a classe operária, não se pode nem falar em bolchevização do Partido ou em sua transformação numa organização realmente capaz de liderar com êxito a luta revolucionária de massas. Entretanto, o PCB continua sendo de fato uma organização fechada que não soube estabelecer uma forte ligação com as massas proletárias.

Mesmo quando se criavam condições objetivas excepcionalmente favoráveis para o reforço da ligação entre o Partido e a massa trabalhadora ‒ tal como durante a greve dos ferroviários, quando as próprias massas, por vezes, “procuravam” o Partido Comunista e buscavam permanecer sob sua liderança ‒, elas foram extremamente mal aproveitadas. O Partido ainda está isolado das amplas massas operárias, ora ficando para trás na evolução do movimento de massas, o que constitui o perigo principal (assim, por exemplo, uma série de grandes greves se realizou sem qualquer participação do PC do Brasil), ora lançando, por outro lado, palavras de ordem e diretivas esquerdistas (tendências golpistas, subestimação da tática da frente única pela base etc.).

Embora o PCB já tenha começado a desenvolver parcialmente a estruturação partidária com base nas células de empresa, ele ainda não tem células na maioria das grandes empresas. Aquelas existentes estão isoladas das massas, não sabem do que elas vivem ou quais são seus sentimentos e exigências, nem têm encabeçado ou liderado as massas em sua luta econômica e política cotidiana.

O movimento sindical revolucionário, principal correia de transmissão entre o Partido e as massas operárias, encontra-se num estado de total desorganização e sua atuação não tem se baseado nas instruções dadas pelo CEIC na carta sobre o trabalho sindical nos países da América do Sul e do Caribe. O movimento sindical revolucionário não só não se fortaleceu nos últimos tempos, como, pelo contrário, perdeu as poucas forças que tinha. A direção da CGTB praticamente não existe e as organizações sindicais revolucionárias, com algumas exceções, só existem no papel, não estando realmente ligadas às massas nem desencadeando ou liderando sua luta. No fundo, não se realiza um trabalho sequer nos sindicatos reacionários anarcossindicalistas e reformistas nem nos sindicatos oficiais recém-fortificados.

O Partido não somente não aprendeu a realizar na prática a frente única pela base, mas também sequer ainda se deu conta, por parte de inúmeras camadas suas, da enorme e atual importância dessa forma de luta pelo apoio da maioria da classe operária. O Partido não tem conduzido quase nenhuma luta real por reivindicações parciais nem organizado ações de massas em torno delas, embora lhes dê grande espaço em seus “manifestos”. Apesar da crescente demagogia de nossos adversários e embora eles empreguem manobras “de esquerda” cada vez mais amplas, o Partido não soube até agora concentrar minimamente suas forças no desmascaramento de seus adversários no curso da atual luta das massas operárias por reivindicações parciais.

A tarefa imediata do Partido no que toca fortalecer sua ligação com as amplas massas proletárias é concentrar o trabalho num pequeno número de grandes empresas ‒ especialmente criando e fortalecendo células partidárias ‒ e numa série de grandes sindicatos. O Partido deve formular reivindicações básicas, orientadas à defesa dos interesses imediatos da classe operária diante da crescente ofensiva do capital, do reforço da reação política e do agravamento do perigo da guerra, e deve organizar ações de massas em defesa delas. As reivindicações devem se adaptar às condições de cada região e de cada empresa, ter um caráter plenamente concreto e ser inteligíveis aos operários mais atrasados. O Partido deve criar nas grandes empresas “comitês de luta contra a ofensiva do capital e a reação política” como órgãos da frente única pela base, chamando a participarem trabalhadores de todas as orientações políticas e buscando, ao mesmo tempo, garantir a liderança comunista nesses comitês.
As células partidárias nas empresas e as frações comunistas nos sindicatos devem propor aos “comitês de luta” e às lideranças sindicais que se organizem ações de massas em defesa das reivindicações parciais ‒ comícios, manifestações, greves etc. ‒, desmascarando implacavelmente no próprio curso da luta de massas todas as tentativas de nossos inimigos de arrasar, sabotar e atraiçoar essa luta.

O Partido deve prestar a mais séria atenção à seleção e formação dos quadros dirigentes do movimento sindical revolucionário, organizando uma rede de cursos sindicais, criando uma publicação especial para os sindicatos etc.

5 ‒ A EXTREMA DEBILIDADE DO TRABALHO PARTIDÁRIO NO CAMPO. 

Embora a vitória da revolução democrático-burguesa só seja possível garantindo-se o papel dirigente do proletariado comandado pelos comunistas, o PCB, com relação ao campesinato trabalhador, mesmo tendo obtido recentemente alguns êxitos, principalmente em São Paulo, no trabalho entre o proletariado agrícola, foram êxitos, em primeiro lugar, não consolidados por uma campanha de recrutamento bem sucedida e, em segundo lugar, não aproveitados para adentrar a influência partidária nas amplas camadas do campesinato pobre e médio. O Partido continua a subestimar a importância de uma liderança proletária no movimento camponês e não tem conduzido nenhuma luta real pelas reivindicações parciais do campesinato trabalhador, sequer elaborando uma lista delas. Quase não reagindo diante da luta das massas camponesas que tem se desenvolvido espontaneamente e adquirido, em vários casos, um caráter bastante impetuoso, o Partido, por outro lado, às vezes tem proposto diretivas que superestimam o amadurecimento da situação revolucionária e que, por isso, ficam em suspenso (tais como a da criação de sovietes camponeses, proposta em São Paulo no tempo da “guerra civil”).

As tarefas imediatas do Partido nesse âmbito são: a) criar células partidárias nas grandes regiões agrícolas, chamando os melhores e mais conscientes assalariados agrícolas e camponeses pobres e médios que no passado tenham participado ativamente do movimento revolucionário espontâneo dos camponeses; b) mobilizar parte dos quadros ativos urbanos num trabalho permanente no campo; c) realizar um trabalho sistemático nos sindicatos agrícolas já existentes e criar novos sindicatos; d) criar “comitês de luta camponeses” em prol dos interesses imediatos do campesinato pobre e médio e do proletariado agrícola; e) elaborar reivindicações parciais concretas e realizar em sua defesa uma série de ações de massas que passo a passo levem o campesinato a lutar pela apropriação e divisão imediatas dos latifúndios; f) estabelecer ligações com os melhores elementos do movimento dos “cangaceiros” que sejam estreitamente ligados às massas e conquistar a liderança desse movimento.

6 ‒ A EXTREMA DEBILIDADE DO TRABALHO PARTIDÁRIO ENTRE AS MASSAS TRABALHADORAS DOS POVOS OPRIMIDOS. 

O Pleno de agosto de 1932 do CC submeteu a uma séria discussão a questão nacional, o que sem dúvida indica por si só um notável passo adiante. Mas nesse mesmo Pleno se revelou com toda clareza o quão débil ainda é a lida com os princípios básicos da política leninista das nacionalidades, mesmo entre os quadros dirigentes do Partido; assim, por exemplo, certos participantes desse Pleno se manifestaram contra a diretiva do direito dos povos à secessão, apontando que essa aspiração já fora alcançada nos EUA, onde os negros seriam “separados” dos brancos por lhes serem destinados, por exemplo, lugares especiais nos bondes, trens etc. Goza de ampla difusão no Partido toda sorte de teorias “raciais” burguesas, tal como a tendência a reunir os diversos povos indígenas numa única “raça”, escondendo a recusa em lutar pelo direito dos povos indígenas à secessão. O conjunto do Partido ainda não desenvolveu nenhum trabalho prático entre as massas trabalhadoras dos povos oprimidos em defesa de sua libertação nacional, limitando-se, no melhor dos casos, a frases e raciocínios gerais.

As tarefas do Partido nesse sentido são: a) lutar decididamente contra a subestimação da questão nacional, defender a palavra de ordem leninista do “direito dos povos à secessão” e combater toda e qualquer deturpação desse princípio; b) chamar às fileiras do Partido os melhores representantes do movimento revolucionário espontâneo das massas trabalhadoras negras e indígenas; c) articular a luta por reivindicações parciais à luta pela libertação nacional dos trabalhadores negros e índios (exigir iguais condições de trabalho aos operários de todas as nacionalidades, a abolição do trabalho forçado dos índios etc.).

7 ‒ O PARTIDO TEM PRESTADO UMA ATENÇÃO EXTREMAMENTE DÉBIL AO TRABALHO ENTRE AS MULHERES E A JUVENTUDE TRABALHADORA. 

O trabalho sistemático entre as mulheres trabalhadoras é, no fundo, totalmente inexistente. No que concerne à FJC, o Partido não soube lhe manter as rédeas de modo sistemático e bem orientado politicamente, e por isso, em algumas camadas dessa juventude, ainda circulam teorias “vanguardistas”, bem como diretrizes pela sua conversão numa “organização de massas que abarque os jovens trabalhadores de todas as orientações políticas”, diretrizes que a transformariam, se postas em prática, numa arma política antipartidária e contrarrevolucionária.

8 ‒ O PARTIDO TEM PRATICAMENTE MENOSPREZADO A IMPORTÂNCIA DE LUTAR CONTRA OS IMPERIALISTAS, 

não tem realizado um trabalho sistemático para esclarecer as massas sobre a ligação indissolúvel entre as tarefas da revolução antifeudal e anti-imperialista, quase não soube penetrar nas empresas industriais e fazendas que se encontram nas mãos do capital estrangeiro e não tem proposto reivindicações parciais, articuladas especialmente com as tarefas gerais da luta para libertar o Brasil do domínio imperialista.

9 ‒ O PARTIDO AINDA NÃO SE CONSCIENTIZOU DA ENORMIDADE DO PERIGO DA GUERRA E NÃO TEM REALIZADO UM TRABALHO ANTIMILITARISTA SISTEMÁTICO NO ESPÍRITO DO MARXISMO-LENINISMO. 

Apesar da enorme importância do Brasil como uma grande base de retaguarda ou mesmo como um dos participantes de uma futura guerra interimperialista ou de uma guerra contrarrevolucionária dirigida à URSS e apesar do evidente perigo de uma intervenção brasileira numa guerra nas cabeceiras do Amazonas, o Partido não tem realizado uma campanha sistemática contra o perigo da guerra. Mesmo durante as greves que o Partido mais ou menos ativamente liderou, ele quase nada fez para ligar as reivindicações dos grevistas com as palavras de ordem antimilitaristas. O Partido não tem criado “comitês de luta contra a guerra” nas empresas industriais nem nas zonas rurais. De maneira absolutamente insatisfatória se realizou a preparação para o Congresso Latino-Americano Contra a Guerra Imperialista ‒ arregimentação insuficiente das massas, convite a trotskistas etc. O partido não ostenta nenhuma conquista real no trabalho entre as Forças Armadas das classes dominantes, limitando-se a lançar, vez ou outra, panfletos e apelos isolados, geralmente com diretrizes políticas errôneas. Assim, por exemplo, durante a “guerra civil” do ano passado, alguns apelos partidários propunham a diretriz pacifista pequeno-burguesa da luta “contra todas as guerras”, defendiam a teoria do “mal menor” com relação aos tenentistas, apoiavam a “tese” absurda de que a “preparação de uma intervenção antissoviética” era o “fator principal” das guerras no Chaco e no Brasil etc.

Em algumas camadas do Partido circula uma teoria esquerdista segundo a qual “a guerra seria um fato positivo, pois conduziria à revolução”, ou seja, uma teoria completamente oportunista, que esconde a incapacidade e a má vontade em realizar um trabalho de massas sistemático que desencadeie as lutas de classe na cidade e no campo, levando a classe operária e o campesinato trabalhador à revolução.

10 ‒ O PARTIDO NÃO LANÇOU UMA PROPAGANDA SISTEMÁTICA DAS CONQUISTAS DA EDIFICAÇÃO SOCIALISTA NA U.R.S.S. 

As tentativas de criar uma “Sociedade dos Amigos da URSS” até agora só levaram ao surgimento de organizações absolutamente desligadas das massas e convertidas num reduto de intelectuais pequeno-burgueses, parte dos quais intrigava contra o Partido sob o abrigo de um fraseado “de esquerda” e “pró-soviético”. O PCB não tem realizado uma campanha sistemática de esclarecimento sobre os êxitos, dificuldades e tarefas da edificação socialista na URSS, e em certas camadas do Partido existe até uma desconfiança nas iniciativas do PC(b) da URSS e do governo soviético, chegando a casos de calúnias trotskistas contra os bolcheviques e o camarada Stálin.

11 ‒ O PARTIDO TEM PRESTADO UMA ATENÇÃO INSUFICIENTE À FORMAÇÃO INTERNACIONALISTA DE SEUS MEMBROS. 

Não têm sido esclarecidos os grandes acontecimentos de importância internacional e não tem sido feita nenhuma tentativa de estabelecer ligações entre esses acontecimentos com esta ou aquela tarefa do Partido e das amplas massas trabalhadoras.

12 ‒ ATUALMENTE A IMPRENSA PARTIDÁRIA AINDA NÃO CONSTITUI DE FORMA ALGUMA UM AUTÊNTICO “ORGANIZADOR COLETIVO” DAS MASSAS. 

Mesmo A Classe Operária, órgão central do Partido, tem aparecido de forma absolutamente irregular e sua ligação com as massas é muito débil. Ele não tem lançado luzes sobre a vida cotidiana dos trabalhadores nem respondido a seus interesses presentes ou refletido suas necessidades vitais. Ao mesmo tempo, A Classe Operária não está em condições de elevar o nível de consciência política das massas nem de servir como um autêntico propagador das ideias comunistas entre as massas. É indispensável: а) garantir uma tiragem regular e uma ampla divulgação de A Classe Operária; b) garantir um afluxo constante de correspondência operária e camponesa, desenvolver uma rede de correspondentes operários e camponeses e organizar-lhes a direção; c) criar um quadro permanente de colaboradores políticos para o jornal, capazes de assegurar-lhe uma feição bolchevique; d) garantir a liderança permanente do jornal por parte dos órgãos dirigentes do Partido.

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A fim de livrar o Partido dos elementos estranhos e convertê-lo numa autêntica organização bolchevique, é indispensável debater a presente carta e as instruções especiais listadas, que devem ser trabalhadas pelo CC do PCB em todos os círculos partidários, nos comitês, células e frações comunistas, bem como traçar um plano concreto para livrar o Partido dos elementos estranhos e para reestruturar radicalmente todo o trabalho partidário.
CONFIRA
TEXTOS SOBRE "CAMARADAS"
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quarta-feira, 26 de março de 2025

PENSAMENTO CESAR MONTES * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

PENSAMENTO CESAR MONTES
DECLARAÇÃO DE LONGE

O surgimento de formas violentas de luta na Guatemala marcou uma virada no curso da Revolução. Essa mudança ficou evidente com a rebelião popular de março e abril de 1962, embora antes disso tenham ocorrido importantes surtos que marcam nossa história: a tentativa de golpe de Cobán e o levante de 13 de novembro de 1960. Em resposta à violência do inimigo, o povo levantou a gloriosa ação guerrilheira.

Embora tenha havido tentativas de definir uma liderança revolucionária, foi somente em março de 1965 que as FAR foram realmente reintegradas como uma organização político-militar "relativamente ampla", com a participação da liderança do Partido Trabalhista Guatemalteco (PGT), da frente guerrilheira "Edgar Ibarra" e da Juventude Trabalhista Patriótica, tentando garantir que a luta armada e política convergissem, fossem planejadas em conjunto e estivessem sob uma única liderança. A carta da frente guerrilheira "Edgar Ibarra" e, em particular, a renúncia do Comandante Turcios do Movimento Revolucionário "1.1 de Novembro" (MR-13), abriu caminho para uma solução à crise que o movimento revolucionário guatemalteco enfrentava naquele momento.

Foi assim que o Centro de Liderança Revolucionária foi criado. Entretanto, ao formar uma liderança com políticos de um lado e líderes militares do outro, foi estabelecida uma liderança dupla que só serviu para impedir o reconhecimento dos verdadeiros líderes da guerra. Com os líderes guerrilheiros nas montanhas, o Centro de Liderança Revolucionária foi tomado pela camarilha dominante do PGT, que, em vez de estabelecer uma liderança verdadeiramente unida, despojou o movimento armado de seus verdadeiros líderes, absorvendo os líderes guerrilheiros no PGT.

A conferência de março de 1965, que deveria resolver o binômio liderança política-liderança militar incorporando os chefes do PGT às tarefas de guerra, convertendo a disciplina do PGT em disciplina militar, adotando métodos executivos, centralizados e verticais, só serviu para aprofundar as divergências entre o Comitê Central do PGT e as unidades armadas, ao integrar um centro de liderança no qual predominava a posição dos que estabelecem diferenças entre liderança política e liderança militar e dos que afirmam que a liderança política deve estar acima da liderança militar. Em vez de incorporar liderança política às tarefas de liderança militar, a conferência despojou as unidades armadas de sua liderança exclusiva. Até o Comandante Turcios, que permaneceu nas montanhas de novembro de 1963 a fevereiro de 1965, teve que permanecer na cidade realizando tarefas puramente políticas.

Com a conferência, o Comitê Central do PGT realizou uma sessão plenária em meio a fortes divergências ideológicas, culminando a discussão sobre o problema do caminho da revolução guatemalteca. Entretanto, o Comitê Central não foi além de reafirmar a luta armada como parte da estratégia do Partido e insistiu apenas na "forma da guerra revolucionária popular..." Ele destacou duas características fundamentais da guerra, a saber: "sua natureza prolongada, que deve passar por três etapas em seu desenvolvimento, e seu caráter como uma guerra popular", insistindo como algo verdadeiramente novo que "sem o apoio das massas populares, o triunfo da luta armada é impossível".

Em maio de 1965, outra sessão plenária do Comitê Central do PGT foi realizada para aprovar as "dez teses sobre organização", que concebiam a FAR como "a organização encarregada de liderar diretamente a luta armada sob a responsabilidade do PGT e outros revolucionários que, embora não sejam membros do Partido, aceitam as teses fundamentais do marxismo-leninismo; uma organização não paralela, mas concêntrica, ao PGT".

As Dez Teses exigiam a criação de comitês regionais centrados no comitê leal ao Partido, a criação de comitês de zona e comitês locais, órgãos clandestinos, que deveriam ser estabelecidos em todas as aldeias, fazendas, bairros, fábricas, centros estudantis e todas as frentes de luta. Cada comitê governante, com seu representante político-militar, era responsável por executar e monitorar periodicamente o trabalho de base em suas respectivas jurisdições, mas o papel desses comitês não era totalmente compreendido.

O papel atribuído ao Centro de Direção era garantir "a combinação dialética de ações combativas com trabalho organizacional e político". Nesse sentido, o Centro de Comando tentou planejar todas as nossas operações a partir da cidade de acordo com as conveniências políticas de pressionar o governo para que o aparato militar e os comitês as colocassem em prática.

- O PGT forneceu as ideias e a FAR forneceu as mortes

Este fato deu origem a uma dupla tendência: de um lado, a atividade combativa e, de outro, a atividade de organização política. A dupla tendência exacerbou as contradições dentro do movimento, e a falta de comando centralizado levou à criação prematura de outros "focos de guerrilha" onde poderíamos discutir e resolver nossas diferenças a partir de posições de força. Tanto o comitê executivo da extinta Juventude Patriótica do Trabalho quanto a liderança do PGT começaram a organizar bases de apoio em diferentes regiões com vistas a formar unidades armadas, mas isso não correspondeu a nenhum crescimento real do movimento ou de sua capacidade ofensiva. Essa dispersão de esforços, motivada por divergências e pela causa e efeito da ausência de um comando único, efetivamente interrompeu o desenvolvimento da frente guerrilheira "Edgar Ibarra".

No final de 1965, surgiram os primeiros “elementos para o desenvolvimento das táticas para a primeira fase da guerra”. Esses elementos caracterizaram essa etapa como "uma estratégia defensiva porque o inimigo é mais forte que nós". Segundo isso, era necessário primeiro organizar o povo para a guerra, organizar zonas de guerrilha, organizar a resistência, organizar a luta clandestina e, apoiado nisso, utilizar todas as formas de luta; Isto significava que o fundamental neste período era a organização das massas em geral e dos comitês clandestinos do PAR e, ao mesmo tempo, fortalecer, renovar e desenvolver o Partido; Em outras palavras, elevar a consciência das massas, conquistá-las para nossas posições, incorporá-las à guerra em unidades combatentes, na rede de base, na organização político-militar, e não por meio do combate armado, mas "por meio de intensa propaganda, educação e trabalho organizacional"; e o mais importante: “Não caiamos em ações prematuras que alertem o inimigo e desencadeiem a repressão onde ainda não estamos organizados…”

Segundo a tática da primeira etapa, a organização "político-militar" deveria "cercar" os grupos de ação e autodefesa ou guerrilhas sem se tornar parte desses grupos, mas sim "atendê-los em todos os sentidos e principalmente politicamente para garantir seu correto desempenho não apenas nas táticas de luta, mas também no moral revolucionário". O papel dos comitês não era, portanto, dirigir as ações das unidades armadas onde elas já existiam, mas apenas "incutir nos combatentes o espírito de guerra revolucionária, a determinação de lutar e a dedicação à causa". Essa é a tática do PGT (sua camarilha dominante). Acontece que não foram os "propagandistas" e "organizadores" que não tiveram determinação para lutar, aqueles que nunca declararam guerra, mas sim aqueles que, por meio de palestras e cursos de curta duração, tiveram que incutir a determinação para lutar naqueles que lutavam com armas nas mãos.

Quando essas diretrizes pareciam indicar que a principal forma de organização e luta no desenvolvimento da revolução guatemalteca é a militar e paramilitar, essa impressão foi dissipada ao indicar que isso não significava que "outras formas de luta, incluindo as legais e pacíficas" não fossem usadas. Quando essas diretrizes indicaram o caminho correto da luta armada, elas imediatamente recuaram, dizendo: "Isso não significa que as formas pacíficas e legais tenham se esgotado em nosso país, não: ainda há possibilidades legais e pacíficas que devem ser aproveitadas ao máximo." Nessas condições, a camarilha dominante do PGT desviou suas energias para alcançar coordenação e entendimentos parciais com outras forças. Foi estabelecida coordenação com a União Democrática Revolucionária (URD) ​​e a Democracia Cristã (DC). Foram realizadas negociações com o Partido Revolucionário (TTR) durante e após as eleições de março de 1966, durante as quais foi feita a proposta de atuar como intermediários na importação de café para países socialistas, resolvendo assim o problema econômico da burguesia e criando uma nova fonte de renda para sustentá-la no poder, contra o qual estamos lutando.

Os elementos táticos para a primeira etapa apontavam precisamente que "toda nação à qual se impõe a guerra no desenvolvimento da luta revolucionária pela conquista do poder deve estar ciente de que precisa formar um exército, baseado em destacamentos guerrilheiros, para enfrentar, com o apoio das massas, um exército profissional muito maior, com técnicas de guerra modernas e avançadas". Mas ao insistir resolutamente em "outras formas de luta", na implementação de "uma ampla luta econômica, política e ideológica ao lado dos militares" e no trabalho de organização de uma frente única, o conteúdo político da luta armada foi distorcido e a interrupção do desenvolvimento da frente guerrilheira "Edgar Ibarra" foi justificada. Foi precisamente isso que nos levou a cometer erros quando tentámos “tirar partido” da situação criada pelas eleições presidenciais de Março de 1966.”

Depois de quatro anos de luta, fazemos um balanço: 300 revolucionários mortos em combate, 3.000 homens do povo assassinados pelo regime de Julio César Méndez Montenegro. O PGT (sua camarilha dominante) forneceu as ideias e a FAR forneceu os mortos.

Apesar da situação imposta pelas FAR ao regime de Peralta Azurdia, e tendo denunciado e combatido a farsa eleitoral reafirmando "a necessidade de manter o rumo da luta armada revolucionária como base principal para afastar as forças contrarrevolucionárias do poder e levar a cabo a revolução"..., o Comitê Central, "levando em conta a necessidade de aguçar as contradições dentro das classes dominantes e reduzir a base política e social da ditadura militar, convocou o voto na candidatura de Méndez Montenegro", que conseguiu triunfar com maioria relativa.

Pressionado pela ameaça de um golpe militar com a intenção de impedir que o presidente eleito tomasse posse, Méndez Montenegro prometeu perante a embaixada dos EUA "continuar a luta mais enérgica e inabalável contra os comunistas e as guerrilhas, não fazer nenhuma mudança no exército, nem revogar a Constituição da República recentemente aprovada durante a ditadura".

- Uma luta entre o novo e o velho

Enquanto o inimigo resolvia suas contradições e se preparava para usar Méndez Montenegro para lançar a ofensiva mais astuta que já enfrentamos, a liderança do PAR permanecia atolada em desentendimentos internos motivados pela incapacidade e hesitação da camarilha governante do PGT. Ainda em 30 de maio de 1966, o Comandante Turcios advertiu que "o PGT, por responsabilidade de seu Comitê Central, não cumpriu seu papel de vanguarda, e foi isso que motivou a crise posterior que levou à mudança de uma parte do Comitê Central, crise que ainda persiste e continuará se agravando". Segundo o Comandante Turcios, essa crise consistiu em "uma luta entre o novo e o velho, entre o pensamento conservador e oportunista e o pensamento consequente e revolucionário, uma luta entre uma linha marxista-leninista criativa e em desenvolvimento e outra linha esquemática, estática, dependente e com uma grande dose de revisionismo".

Com o triunfo do Partido Revolucionário (PR), as forças armadas rebeldes baixaram a guarda, posicionaram-se em alerta e começaram a discutir questões de comando. Os líderes do PGT estavam muito ocupados “tirando vantagem da lei”.

Quando o comandante Turcios morreu em outubro de 1960, a liderança das FAR começou a discutir se a guerrilha era a vanguarda do movimento ou não e se deveria haver um comandante ou não (a maioria da liderança das FAR eram membros da liderança do PGT). Em vez de unificar todas as nossas forças em torno da frente guerrilheira “Edgar Ibarra” e reconhecer a autoridade do camarada Cesar Montes como o sucessor legítimo do comandante Turcios, para combater o inimigo, nossas forças foram mantidas dispersas e as FAR ficaram praticamente sem um comandante.

O inimigo não precisava discutir e, no mesmo dia da morte do Comandante Turcios, eles enviaram 10.000 soldados para a Sierra de las Minas e as Montanhas Mico, sob orientação local de soldados americanos. O fim das hostilidades deu às facções civis e militares inimigas tempo suficiente para chegar a um entendimento sobre novos métodos de combate à guerrilha, reorganizar a burocracia militar e planejar a nova ofensiva.

A ausência de um comando único impediu a formulação de uma estratégia precisa para a luta armada, e a ausência de tal estratégia impediu o planejamento adequado das táticas. A falta de um comando único manteve os guerrilheiros isolados, e a resistência urbana agiu por conta própria, sem direção estratégica ou tática. As FAR estavam sob o controle de um partido cuja liderança de direita, na prática, nunca havia estado em guerra.

A frente guerrilheira “Edgar Ibarra” é onde se resume a principal e mais rica experiência de luta armada do nosso país, é ali onde chegamos ao ápice do nosso desenvolvimento militar e político; E é aqui, com seus contratempos, que esse período termina; Por todas essas razões, é o ponto de partida para a renovação e o novo impulso da luta armada.

A camarilha dominante do PGT reflete constantemente suas tendências conservadoras e de direita e seu claro comprometimento com as forças da contrarrevolução.

- As FAR surgem como uma necessidade do povo

A característica fundamental da direção do PGT é que ela é uma extensão do movimento revolucionário democrático-burguês, sua parte mais radical; Sua formação é desse tipo e ele nunca conseguiu se libertar completamente de sua formação política burguesa. Se as FAR surgiram como resultado da necessidade do povo de enfrentar os opressores e o imperialismo, se as FAR surgiram no calor do violento confronto do povo com a violência reacionária, o PGT surgiu com o desenvolvimento democrático do país, dentro da lei.

O povo guatemalteco, os trabalhadores, os camponeses e outras camadas revolucionárias, necessitam de uma organização de classe, de uma vanguarda independente e organizada que responda intransigentemente aos seus interesses vitais, aos de todo o povo, à soberania e à dignidade nacionais; uma organização nascida do coração do povo, dos indignados e humilhados, que reúne e lidera os interesses dos guatemaltecos; que, pisando em solo nacional, promova leis e medidas de mudança social, que não só “interprete a realidade nacional”, mas sobretudo mude revolucionariamente a situação, sonho secular de Marx e exemplo de Lenin, Mao, Ho Chi Minh e Fidel Castro.

A influência da burguesia dentro do PGT foi enorme e se reflete tanto na concepção da revolução quanto em seus métodos; todos os erros dessa liderança foram erros de direita; admitido superficialmente em todas as resoluções da Comissão Política. A camarilha dirigente do PGT organizou um partido legal, um movimento sindical, e formou seus quadros sob a ilusão do desenvolvimento evolutivo da revolução, no marco de uma Constituição burguesa com um exército dominado e dirigido pela burguesia, e dentro dos conceitos dogmáticos e rígidos de uma falsa solidariedade ideológica.

A camarilha dirigente do PGT, apesar de nosso país ser agrário e de os camponeses lutarem pela terra, não deu a devida atenção a essas lutas. O trabalho realizado não foi diferente daquele realizado pelos partidos burgueses, cujo único interesse é ter uma forte base eleitoral. O trabalho no setor camponês indígena era nulo, baseado na falsa tese de que “eles são reservas da reação”. Seus líderes nacionais se limitaram ao trabalho burocrático, à política, nas cidades, trabalhando com artesãos e sindicatos. A camarilha dirigente do PGT, dentro do quadro legal, não criou condições revolucionárias; em vez disso, aderiu às leis burguesas e às medidas legais e políticas dentro da estrutura da constitucionalidade burguesa. A camarilha dominante não conseguiu criar as condições legais para lutar na clandestinidade; foi incapaz de combinar luta clandestina e legal, muito menos de criar instrumentos e dispositivos militares para esmagar a reação e o imperialismo. Somente no papel, em folhetos e na terminologia se falava de uma aliança operário-camponesa e da hegemonia do proletariado na revolução. Na realidade, eles são uma força política viciada nos ditames da burguesia e seus líderes; sua limitação básica e essencial é sua tendência ao compromisso.

A falência de 1954 sepultou definitivamente as formas tradicionais de luta, mas os dirigentes do PGT só sofreram suas consequências no abrigo do exílio, e todo aquele comportamento errôneo e equivocado logo ressurgiu sob o disfarce da clandestinidade, cujo peso ainda perdura. Acostumados aos confortos da legalidade, desde sua falência eles meramente viveram sua "resistência" na segurança da clandestinidade, vivendo em uma retaguarda segura e acomodatícia. Eles falharam em liderar lutas populares, permaneceram isolados das massas e permaneceram nada mais do que sempre foram: um movimento de propaganda. O PGT foi reconstruído, mas ainda carece de uma política independente e de classe; O máximo que seus líderes conseguiram em sua chamada política de massas foi traçar linhas eleitorais, que permaneceram apenas como preâmbulo da agitação na capital, criando órgãos eleitorais fracos e efêmeros, que eles pomposamente chamaram de "trabalho de frente única" e da mesma forma formularam e dificultaram o trabalho revolucionário da luta armada.

O PGT, e especialmente sua liderança, deixou de ser um instrumento revolucionário. Os trabalhadores e camponeses precisam de uma organização cuja liderança não seja um órgão deliberativo, mas sim um órgão supremo de ação, capaz de forjar a aliança operário-camponesa por meio da guerrilha, que é o que constituem as FAR e seu comando único.

A força organizadora e mobilizadora na luta contra as forças opressoras do inimigo, o exército e as forças policiais, é a guerrilha. O movimento guerrilheiro, que tira sua força do campesinato, une intelectuais, trabalhadores e outros estratos, formando uma unidade nacional sob a liderança ideológica da classe trabalhadora. Os acontecimentos, o desenvolvimento da luta e a maturidade da FAR há muito ultrapassaram a camarilha dirigente do PGT, e nossa organização não depende mais dessa liderança cujas limitações e obsolescência se refletiram na história da luta revolucionária em nosso país.

Diante da impossibilidade de resolver o problema político da liderança por qualquer outro meio, a guerrilha, em caráter executivo, fornece uma solução militar e se torna a liderança político-militar da revolução.

"Neste momento, somente a fortaleza revolucionária de um núcleo determinado e consciente, que assume sem hesitação a tarefa de realmente liderar a guerra, sem depender mais da velha liderança, dos velhos conceitos e dos velhos métodos, pode levar adiante o movimento revolucionário guatemalteco, levando o povo à vitória definitiva e total."

"A guerra não pode ser liderada por aqueles que fazem concessões, nem por aqueles que fazem um mito do termo luta político-militar, porque isso convém aos seus interesses; por aqueles que fingiram participar plenamente dessa luta até a morte, mas protegeram seus próprios recursos e aparatos; por aqueles que brincaram com a morte de nossos combatentes, porque esperaram e estão esperando o momento de recuar."

As resoluções do Comitê Central afirmam que "nosso principal fracasso foi a fraqueza política e de propaganda com a qual respondemos ao inimigo". Nossos erros se devem às visões conservadoras dos líderes do PGT, que priorizam a organização, a propaganda e o fortalecimento do PGT em detrimento do desenvolvimento e fortalecimento de nossas unidades armadas. Ela subordina a concepção de um plano estratégico de desenvolvimento da luta armada às necessidades e ao fortalecimento do PGT e à derrota do que eles chamam de "abordagens liquidacionistas".

Os líderes do PGT não podem oferecer ao povo uma compreensão correta do desenvolvimento estratégico da luta armada, porque qualquer proposta que eles façam sempre será baseada na manutenção de suas posições de força por meio de "suas organizações regionais". Para eles, a primeira prioridade é fortalecer o PGT por meio do fortalecimento de "seus escritórios regionais". Eles estão determinados a investir seus esforços ali porque, para eles, esses escritórios regionais são sua força política e até "militar", o que lhes permite manter sua hegemonia na liderança do movimento revolucionário.

A camarilha dirigente do PGT não consegue superar suas deficiências porque seus conceitos se limitam à necessidade de "neutralizar o perigo de divisão em nossas organizações". Para os dirigentes do PGT, a luta armada é uma necessidade tática, um instrumento de agitação, uma moeda de troca para garantir a sobrevivência do Partido e deles, dirigentes, pessoalmente, enquanto ocorre "uma nova mudança de forças no campo contrarrevolucionário". Isso não nos preocuparia tanto se não fosse pelo fato de que eles mantêm suas posições de poder à custa das vidas de inúmeros militantes, combatentes e pessoas comuns. Manter essas posições não é apenas uma intransigência aventureira, mas uma intransigência criminosa.

A agitação da camarilha dirigente do PGT sobre o perigo do esquerdismo, do radicalismo de esquerda, da tendência a pular etapas, do perigo de formas militares insulares que subestimam outras formas de "luta" e minimizam o papel da "vanguarda da classe trabalhadora" e de seu partido de vanguarda, apenas revela o que eles são: uma seita estreita de defensores de um "marxismo-leninismo" alheio à luta diária dos problemas vitais do povo. Em sua resolução de julho de 1967, eles afirmam que as divergências internas foram reacendidas após os golpes recebidos porque "a conferência nacional do PGT de 1966, embora tenha sido um passo importante, não resolveu seriamente questões importantes da luta ideológica".

Naturalmente, não consegui resolvê-los porque essas questões são de natureza teórica e se refletem claramente em sua natureza prática.

- A posição de vanguarda é conquistada pela luta.

O PGT serviu apenas para encobrir a falta de liderança militar e política. Do ponto de vista orgânico, o PGT deveria ser a vanguarda, mas do ponto de vista funcional, era a frente guerrilheira “Edgar Ibarra” e a frente guerrilheira “Alejandro de León”. A vanguarda do movimento revolucionário guatemalteco, onde a guerra começou, tem sido a vanguarda do movimento guerrilheiro. Na história da luta armada do nosso país, a camarilha dirigente do PGT não aparece na vanguarda, nem na linha de frente da luta.

Divergências com aqueles que permanecem na mera retórica política, sem provar a correção de suas visões na prática, são divergências cuja solução seria extraoficial ou inútil tentar, como disse o Comandante Turcios, "a posição de vanguarda é conquistada na luta diária, a liderança é conquistada através de sua execução bem-sucedida. Se não, se um Partido Comunista não sabe cumprir seu papel, ele é neutralizado, destruído, e outra organização, outros revolucionários com maior clareza assumirão seu papel, chegarão ao marxismo-leninismo, liderarão a revolução e formarão um verdadeiro Partido Comunista."

Na nossa guerra não há espaço para oposição política ou militar. Os líderes políticos da luta armada e da revolução serão "aqueles que participarem dela e se mostrarem capazes de liderá-la no terreno".

- Vamos lutar com todos

Aqui, não se pode conceber um quadro político que não seja ao mesmo tempo um quadro militar. Os verdadeiros líderes do povo já emergiram da luta de guerrilha. Não é no futuro que não haverá mais líderes políticos que não saibam como conduzir ações militares na guerra, nem é no futuro que os líderes militares não precisarão mais de comissários políticos. Hoje, nossos líderes guerrilheiros já são os líderes políticos da luta revolucionária em nosso país. Chegou a hora de mudar o slogan: "todos devem estar preparados e prontos para lutar a qualquer momento" para este: TODOS LUTAM AGORA.

Por outro lado, a manobra da camarilha dirigente do PGT de continuar absorvendo os combatentes mais destacados para seu Comitê Central, apenas para garantir a ascendência política de um Partido que historicamente falhou em desempenhar o papel de vanguarda do movimento revolucionário guatemalteco, foi praticamente derrotada. Nessas condições, propõe-se a criação de um comando único e a concentração de todas as forças armadas rebeldes para formar o Exército Popular.

Dessa forma, continuaremos a ofensiva, desgastando as forças militares inimigas, quebrando sua autoridade e nos preparando para repelir os planos imperialistas de agressão. As forças agressivas do exército americano tentarão nos derrotar, mas todas as suas tropas, todas as suas bombas, seus aviões e helicópteros, todo o seu dinheiro e suas técnicas criminosas servirão apenas para prolongar uma guerra da qual, no final, inevitavelmente sairemos vitoriosos.

SEGUINDO O EXEMPLO COMBATENTE DOS COMANDANTES GUEVARA E TURCIOS LIMA!

GANHE OU MORRA PELA GUATEMALA!

Para o Comando das FAR,
Cmdte. Camilo Sánchez, Capitão Pablo Monsanto, Capt. Socorro Sical, Tenente. Androcles Hernández, Tenente. Ramiro Díaz.

Sierra de Minas, 10 de janeiro de 1968.
ANO DAS GUERRILHA
O ÚLTIMO COMANDANTE DA AMÉRICA CENTRAL
SOBRE A GUERRILHA NA GUATEMALA
Entrevista com César Montes
Conversas Irredentas 

segunda-feira, 24 de março de 2025

PENSAMENTO AGUSTIN CUEVA * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

PENSAMENTO AGUSTIN CUEVA
DOSSIÊ MARXISMO 21

Apresentação

A partir deste dossiê, marxismo21 inaugura uma nova fase de seu trabalho editorial e passa a publicar não apenas a produção teórica de marxistas brasileiros, como vinha fazendo ao longo dos últimos anos, mas também os trabalhos de intelectuais e militantes marxistas de diferentes países da América Latina.

Iniciamos esse novo trabalho editorial com a publicação de um conjunto de artigos, livros, coletâneas e entrevistas do sociólogo marxista equatoriano Agustín Cueva Dávila (1937-1992) e de textos de pesquisadores e comentadores de sua fecunda e extensa obra.

O dossiê foi coordenado por Danilo Martuscelli e a produção da arte do card deste dossiê ficou a cargo de Alexandre Pimenta – membros do Comitê Editorial de marxismo21. Andrés Tzeiman (pesquisador e docente argentino) colaborou de maneira decisiva com a produção deste dossiê com a indicação de contatos de pesquisadores e de textos do próprio Cueva; com a elaboração do instigante texto introdutório sobre a vida e a obra de Cueva (ver logo abaixo); e com a organização temática do dossiê. Somos imensamente gratos a Andrés por esse gesto de generosidade intelectual e compromisso militante.

Este dossiê também contou com a inestimável colaboração de Jaime Ortega Reyna (pesquisador e docente mexicano) e Tomás Quevedo Ramírez (pesquisador e docente equatoriano) que digitalizaram e nos encaminharam uma série de textos de difícil acesso que compõem esta publicação. Fernando Correa Prado (pesquisador e docente brasileiro) e Sofia Lanchimba Velastegui (pesquisadora e docente equatoriana) também disponibilizaram textos digitalizados de seus arquivos pessoais. Somos muito gratos a esses colegas, especialmente a Jaime que é reconhecido por ser um estudioso e incansável divulgador da produção teórica marxista na América Latina.

domingo, 23 de março de 2025

PENSAMENTO FRENTE DE LIBERTAÇÃO NACIONAL DA ARGÉLIA * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

PENSAMENTO FRENTE DE LIBERTAÇÃO NACIONAL
DA ARGÉLIA
FLNA
A BATALHA DE ARGEL
*
A FNLA e a independência da Argélia

A Revolução Argelina deve ser celebrada por todos os que lutam pela autodeterminação e soberania dos povos. O grito de rebeldia de 1 de novembro de 1954 foi um grito de todos os explorados.

Por Fabetz*
Da Página do MST

Nas primeiras horas de 1 de novembro de 1954, unidades guerrilheiras atacaram posições militares francesas em diversas cidades da Argélia. Simultaneamente, foi amplamente divulgado no país africano um manifesto político que reivindicava a independência do domínio colonial francês e afirmava que a luta armada popular seria um dos pilares dessa independência.

François Mitterrand, então Ministro do Interior da França (que viria a ser presidente da nação europeia entre 1981 a 1995) foi enfático na posição colonial: “Argélia é França”, afirmou. Não haveria nenhuma negociação diante das forças insurgentes. Apenas repressão.

O manifesto era assinado pela recém criada Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLNA) e marcava uma nova fase da luta independentista. Luta essa que vinha de uma longa tradição política que se desenvolveu ao longo de séculos neste que atualmente é o maior país em território do continente africano.

Colonização e resistência: crescimento e radicalização

O território argelino foi historicamente povoado pelo povo berbere e, desde o século VII, a sociedade argelina se constituiu como majoritariamente muçulmana. Desde o início do século XVI fazia parte dos domínios do Império Otomano. Diante de fragilidades deste império e a ascensão dos impérios europeus, a França, utilizando de justificativas diplomáticas, iniciou um processo de ocupação militar da Argélia em 1830. Nesse período é formada a famosa Legião Estrangeira, formada por grupos mercenários para a anexação e controle dos territórios sob domínio francês.

Neste período, um terço da população berbere morreu e o império francês passou a incentivar a ocupação dos territórios por seus cidadãos. Esses colonos eram conhecidos como pied-noirs (pés pretos). Em 1865, foi estabelecido que qualquer cidadão argelino poderia se tornar um cidadão francês, desde que abdicasse completamente sua identidade berbere, árabe e muçulmana. O império francês via a Argélia não como uma colônia, mas como parte da pŕopria França, devido ao status de seus colonos.

Se consolidou uma grave separação social. De uma lado, os pied-noirs (majoritariamente cristãos e judeus) que gozavam de direitos políticos e funções privilegiadas na administração. Do outro, as maiorias berberes, árabes e muçulmanas, que tiveram suas terras expropriadas e entregues aos novos colonos. A população nativa se tornou um conjunto de pequenos proprietários expulsos das melhores terras, trabalhando como assalariados dos colonos no campo, ou vendendo a força de trabalho em atividades diversas nos centros urbanos.

A resistência dos nativos foi uma constante durante a ocupação francesa, com muitos levantamentos muçulmanos na década de 1830, que se ampliaram partir do estabelecimento do chamado Código dos Indígenas de 1880, que permitia aos colonos a aplicação de violentas punições e sanções a qualquer tipo de insubmissão às leis coloniais. A resistência argelina também se alimentava das lutas dos povos da Tunísia e Marrocos, países vizinhos também sob domínio colonial francês.

No início do século XX a resistência passou a tomar um caráter mais político, que via a libertação da Argélia de formas distintas. Alguns grupos acreditavam que essa libertação viria de uma incorporação plena da Argélia ao estado francês, para garantir uma igualdade entre todos os cidadãos. Já outros grupos viam na independência completa a única solução. Foi muito importante o envolvimento de religiosos na política, com exigências nacionalistas para que muçulmanos tivessem direitos iguais sem ter de abrir mão de sua identidade e sua moralidade social próprias.

A situação se agravou nas décadas seguintes. Centenas de milhares de argelinos foram convocados a combater pela França nas duas guerras mundiais. Para esses combatentes, a perseguição, tortura e assassinato das autoridades francesas contra a população argelina não se diferenciava das práticas nazistas que os mesmos argelinos encontravam nos campos de batalha.

Findada a Segunda Guerra Mundial, a França buscava formas de contornar a crescente radicalização do movimento nacionalista. Em 1947 foi aprovada uma lei em Paris que permitia aos argelinos serem cidadãos franceses sem ter que abdicar de sua identidade étnica e religiosa. Porém, os colonos franceses na Argélia foram contra esta lei, que nunca se aplicou na prática. O aumento da luta popular foi acompanhado pelo aumento da repressão brutal por parte das autoridades francesas, e os colonos passaram a fraudar as diversas eleições na qual os nacionalistas tinham possibilidades de vitória. Com isso, se fechavam cada vez mais as vias eleitorais, institucionais e negociadas.

Anti-imperialismo, questão colonial e violência.

Em 1952, com o triunfo do movimento cívico-militar que levou Gamal Abdel Nasser ao poder no Egito, as políticas nacionalistas e anti-imperialistas tiveram um novo impulso em toda a região árabe da África. Isso ampliou os horizontes nas diferentes vertentes do nacionalismo argelino, tanto das organizações públicas como das organizações que atuavam na clandestinidade. Além disso, o Egito de Nasser passou a acolher grande parte da dissidência das colônias, possibilitando intercâmbios e articulação até então impossíveis.

A longa tradição política constituída em décadas de resistência argelina, com organizações como a Estrela Norte-Africana (ENA), União dos Muçulmanos Norte-Africanos (UMNA), Partido do Povo Argelino (PPA), Organização Especial (OE), Partido Comunista Argelino (PCA), União Democrática do Manifesto Argelino (UDMA) e Associação Amigos do Manifesto e das Liberdade (AML) via agora novos pontos de convergência e unidade.

Um momento fundamental foi a criação do Comitê Revolucionário de Unidade e Ação (CRUA). Criou-se a partir deste grupo o Exército de Libertação Nacional (ELN) como um braço militar para enfrentar a colonização, e a própria Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLNA), como o instrumento político de unidade de todas as forças. Ambos se tornaram públicos a partir das ações militares contra a ocupação francesa em 1 de novembro de 1954.

A luta pela independência da Argélia levantou intensos debates. O ideais franceses de Liberdade, Igualdade e Fraternidade não eram válidos para as colônias. Enquanto o governo francês celebrava a libertação da França dos nazistas, reprimia as manifestações por liberdade na Argélia. Através da revista Les Tempes Modernes, intelectuais como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Francis Jeanson combatiam às posições de setores da esquerda que criticavam a opção pela violência da FLNA, sob a justificativa de que essas práticas violentas seriam iguais às utilizadas pelo dominador francês. Esses setores, que continham frações do Partido Socialista e do Partido Comunista da França, apostavam em uma solução “racional, negociada e conciliadora”. Tinham como um de seus porta-vozes o escritor Albert Camus.



Porém nenhum intelectual foi mais importante neste contexto do que Franz Fanon. Negro, nascido na então colônia francesa da Martinica, Fanon sempre foi um militante e entusiasta dos movimentos de descolonização. A partir de uma oportunidade de ir a Paris, estudou medicina e posteriormente aprofundou seus estudos em filosofia, sobretudo no conceito de alienação em Hegel e Marx. Trabalhou na Argélia e vivenciou as atrocidades cometidas pelo exército francês. Nacionalizou-se argelino e filiou-se à FLNA. Analisou as dimensões psicológicas do processo colonial, assim como elementos sociológicos e filosóficos.

Criticou duramente os democratas e esquerdistas franceses que viam o processo colonial como pura conquista e ocupação militar. Segundo Fanon, a violência dos oprimidos se transformou na única maneira de fazer frente à violência desagregadora do colonizador, que destrói o que resta de personalidade e identidade do colonizado.

A tortura sistemática dos colonizadores busca anular a dignidade do outro, e ao mesmo tempo impõe a vestimenta da identidade de um ser naturalmente inferior. Dessa forma, a independência verdadeira possibilita um ponto final que não é apenas político, econômico e militar, mas profundamente cultural. Seu livro mais famoso, “Os Condenados da Terra”, se tornou uma referência tanto para a compreensão do processo colonial como para refletir sobre os componentes de uma descolonização radical.

Luta, solidariedade e triunfo da FLNA

A partir da luta armada iniciada em 1 de novembro de 1954, o exército francês escalou ainda mais a repressão, com amplo apoio dos colonos locais. Neste mesmo ano, a França havia sido derrotada pelas forças populares do Vietnã, o que encerrou seu domínio colonial da Ásia. Para o exército francês, mais uma derrota para um “povo inferior” seria uma humilhação intragável.

Em 1956, as independências do Marrocos e da Tunísia enfraqueceram ainda mais o poder colonial. O exército francês via a Argélia cada vez mais como uma “questão de honra”. Sob o discurso de que a Argélia não era uma colônia, mas uma parte da França, a luta contra as forças independentistas assumiu um caráter de guerra total, com todos os opositores tratados como terroristas.

A FLNA passou a desenvolver um amplo trabalho político de solidariedade internacional. Organizou mediações junto à ONU para pautar a questão argelina. Enviou dois representantes, na posição de observadores, para a Conferência de Bandung, realizada na Indonésia em 1955, que explicitou apoio à FLNA e a todas as lutas pela descolonização. A União Soviética declarou apoio à luta pela independência e o apoio crescia entre as sociedades árabes em geral, especialmente no Egito, Tunísia e Marrocos.

Em agosto de 1956, a FLNA organizou um congresso clandestino no Vale de Soummam e reorganizou toda sua estrutura. O país foi dividido em seis zonas (chamadas wilayas), cada uma delas com unidades militares, responsáveis políticos e uma ampla rede de trabalho de base junto com a população. Isso possibilitou uma territorialização sem precedentes à FLNA, já que o apoio popular lhe garantia logística, informações, víveres e refúgio quando necessário. Essa aposta em ações militares acompanhadas de um amplo trabalho político fortaleceu a presença da FLNA no interior do país.

Muitos colonos passaram a vender ou abandonar as terras que receberam do governo francês e se mudaram para a cidade de Argel, capital do país. A FLNA conseguiu obter controle parcial de alguns territórios no país, onde organizava governos provisórios locais. Após a definição de atacar as posições francesas na capital, deu-se início à chamada Batalha de Argel, com violentos combates que duraram meses e resultaram na retirada dos guerrilheiros e num grande desgaste do exército francês diante da população. O filme “A Batalha de Argel”, do diretor italiano Gillo Pontecorvo, que retrata estes episódios, foi lançado em 1966 e seguiu proibido na França até 1971.

Em setembro 1958, desde o exílio no Egito, a direção da FLNA proclamou o Governo Provisório da República Argelina, que foi imediatamente reconhecido pela China, Tunísia, Marrocos, Iêmen, República Árabe Unida, Iraque, Sudão, Indonésia e Líbia. Logo depois, sua estrutura se estabeleceu na Tunísia. Na França, Jean-Paul Sartre e Gabriel Marcel publicaram os escritos feitos desde uma prisão em Argel pelo jornalista Henri Alleg. Chamado “A Questão”, mostrou à opinião pública francesa de forma inédita as práticas de tortura e violência realizada pelo exército francês, com paralelos às práticas outrora realizadas pela Gestapo nazista. O apoio popular à independência da Argélia aumentou na França.

Também ampliaram as denúncias dos campos de concentração na Argélia, que aprisionavam mais de 30 mil pessoas, além da chamada “política de agrupamento”, que estabeleceu o deslocamento forçado de mais de 3 milhões de argelinos durante a guerra.

No início da década de 60, os cerca de 50 mil combatentes da FLNA impunham cada vez mais derrotas aos 450 mil soldados franceses. Pressionado por todos os lados, o então presidente francês Charles de Gaulle convocou um plebiscito sobre as relações entre França e Argélia. 75% dos franceses foram favoráveis à autodeterminação argelina. Ao anunciar a retirada das tropas francesas, setores do exército ainda tentaram um Golpe de Estado contra De Gaulle, mas o intento foi frustrado.

Em julho de 1962, em um plebiscito, seis milhões de argelinos votaram pela independência. Apenas 16 mil votaram contra. Assim, depois de anos e centenas de milhares de argelinos assassinados, a independência saiu vitoriosa, sendo decretada em 3 de julho de 1962. A quase totalidade dos colonos e um milhão de nativos foram para a França. 10% da população francesa é de origem norte-africana e 7% muçulmana. Todos os argelinos nascidos até 1962 e seus filhos nascidos até 1994 são considerados cidadãos franceses.
Ofensiva que começou em 01 de novembro de 1954 foi terminar com a independência da nação árabe em julho de 1962. Foto: Domínio Público

A construção de uma nova Argélia: caminhos e descaminhos

Na Argélia, foi estabelecida uma Assembleia Nacional Constituinte, que elegeu Ahmed Ben Bella (líder histórico e um dos fundadores da FLNA) como presidente. A constituição que entrou em vigor em 1963 definia o país como uma “República Popular, democrática e socialista, integrante do Magreb árabe, do mundo árabe e da África”.

No ano seguinte, o congresso da FLNA proclamou o fortalecimento da solidariedade com os países africanos, em pleno apoio ao movimentos de libertação como os de Angola e aos nacionalistas contrários ao regime do Apartheid em vigor na África do Sul. A Argélia se tornou rapidamente uma referência, e sua capital Argel era um centro internacional de movimentos anticoloniais e anti-imperialistas. A Argélia recebia de braços abertos exilados e refugiados de ditaduras de diferentes partes do mundo.

Porém, essa perspectiva internacionalista encontrava certa resistência no interior do novo governo. A FLNA, estabelecida como partido único no novo regime, possuía muitas divergências em seu interior que afloraram a partir da saída do exército colonizador, que deixou um rastro de destruição em sua retirada. Para alguns setores militares e da pequena burguesia, a prioridade deveria ser a reconstrução interna e na concepção destes, o internacionalismo deveria se expressar em uma solidariedade que não implicasse em gastos de apoio às outras lutas anticoloniais. Para estes setores, mais do que construir uma identidade de classe internacional, tratava-se de consolidar a própria identidade argelina, marcada por séculos de dominação estrangeira.

Um golpe militar encabeçado por estes setores retirou Ben Bella do poder e o chefe do estado-maior, coronel Houari Boumedienne assumiu a presidência em 1965. Sua política nacionalista buscava uma economia moderna baseada na ampliação da autogestão local da economia, de forma descentralizada em muitos setores. Muitas empresas estrangeiras foram nacionalizadas e houve investimento na indústria pesada, em especial ao redor do setor petroquímico, uma vez que a Argélia possui grandes reservas de petróleo e gás natural, cujos preços estavam em ascensão. Uma reforma agrária ampla e investimentos em cooperativas estatais contribuíram para o aumento do PIB nas décadas seguintes, porém nem sempre acompanhados de uma redistribuição de renda.

A partir do final da década de 1970, os sucessores de Boumedienne apostaram em focar o desenvolvimento econômico a partir da aproximação com os EUA e a França, em busca de maiores investimentos estrangeiros, abrindo mais espaço à iniciativa privada e às tendências de uma economia de mercado. A queda dos preços do petróleo nos anos 80 impactou a economia nacional e ampliou o descontentamento popular, gerando as maiores manifestações políticas desde a independência.

Um fenômeno de novo tipo tomou conta da política Argelina. A ampliação da pobreza e a insatisfação com a política dominante ampliou o radicalismo religioso, notadamente o muçulmano, que também sob influência da Revolução Iraniana de 1979, passou se organizar politicamente. As questões de classe passaram a ser tratadas como questões religiosas sob uma interpretação extremista. Diante da pressão dessas mobilizações populares, uma nova constituição foi estabelecida em 1989 (baseada em muito na Constituição Francesa) e um sistema multipartidário foi estabelecido, com 46 novos partidos políticos. Entre estes, se destacava a Frente Islâmica de Salvação (FIS), de natureza fundamentalista.

Mesmo saindo vitoriosa nas eleições de 1991, a FIS não pôde formar um governo em 1992, sendo impedida por um golpe militar da FNLA que decretou a FIS uma organização ilegal. Isso levou ao surgimento do Exército Islâmico de Salvação (EIS) e o Grupo Islâmico Armado (GIA). Foi o início de uma guerra civil de quase uma década, que por um lado ampliou o fundamentalismo religioso, e por outro afetou o prestígio da FLNA junto à classe trabalhadora.
“Um só herói: o povo”: frases como essas eram comuns durante a Guerra da Argélia.

Os desafios da Argélia e o legado da guerra de independência

A partir de 1999, o governo eleito ampliou a abertura econômica e se propôs a dialogar com os grupos islâmicos fundamentalistas. Ao facilitar os investimentos estrangeiros e um processo de privatizações, grande parte da comunidade internacional passou a apoiar os diálogos para um acordo de paz que estabelecesse maior tranquilidade aos investimentos de empresas estrangeiras.

Desde os Acordos de Paz em 1999, a economia argelina ainda busca diversificar-se. A exportação de petróleo e gás são as principais atividades, e a maior parte dos alimentos consumidos no país precisam ser importados (a agricultura representa menos de 10% da economia). Por não ser membro da Organização Mundial do Comércio, a Argélia ainda possui um setor estatal capaz de focar-se em relações bilaterais de comércio e investimento. Atualmente, a abertura do país a capitais estrangeiros foca-se em grandes obras de infraestrutura nas áreas energética e de transportes, sobretudo com capitais chineses e franceses. A maior parte destes investimentos possuem uma grande contraparte de recursos públicos do Estado e empréstimos junto ao Banco Mundial, o que gera novas complexidades e contradições econômicas, políticas e sociais.

Quando em 1 de novembro de 1954 foi deflagrada a revolta armada contra o poder colonial, a FLNA organizou a diversidade da população argelina sob um objetivo comum. Diferenças foram deixadas de lado. Sua luta anticolonial se tornou uma referência mundial, seu território se tornou porto seguro para movimentos de libertação de todas as partes, e sua solidariedade inspirou lutas em diversos povos. Porém é interessante analisarmos que, na medida em que o caráter de classe e internacionalista da construção da nova Argélia foi sendo substituído por um pragmatismo econômico dirigido por uma burocracia das elites, criaram-se cada vez mais condições para o florescimento de conflitos de natureza étnico-religiosa.

As análises de Franz Fanon seguem importantes para pensarmos os processos de descolonização africana e asiática do século XX. Ao deixar de entender o colonialismo como uma expressão do próprio capitalismo, a ilusão das soluções capitalistas se impõem com mais facilidade. De tal modo que os mesmos capitais de antigas metrópoles retornam ao país.

A Revolução Argelina deve ser celebrada por todos os que lutam pela autodeterminação e soberania dos povos. O grito de rebeldia de 1 de novembro de 1954 foi um grito de todos os explorados. E a vitória sobre o império francês em 1962 foi uma vitória de toda a classe trabalhadora. Com o mesmo entusiasmo com o qual devemos celebrar essas importantes datas, devemos também nos dedicar a compreender os desafios contemporâneos diante da possibilidade de velhos e novos impérios estabeleceram formas de dominação ainda mais sofisticadas. Formas essas que podem apagar a identidade de classe e nos vestir, como dizia Fanon, com identidades que apenas interessam aos exploradores.


A Revolução Argelina (1954 – 1962)
A Frente de Libertação Nacional (FLN) 

foi o partido que liderou a luta pela independência da Argélia. A FLN foi formada pelo Comitê Nacional de Unidade e Ação, que pretendia unir as facções que lutavam contra a França.

História da FLN
Em 1956, a FLN se reorganizou em um governo provisório.

A FLN iniciou a luta pela independência da Argélia através de resistência armada, atacando instalações coloniais.

Em 1962, a FLN assinou um cessar-fogo com a França, como parte dos Acordos de Évian.

Em julho de 1962, a população argelina votou em um referendo que aprovou o cessar-fogo com a França.

A FLN foi o partido único na Argélia até o fim dos anos 1980.

Independência da Argélia

A Argélia foi uma colônia da França por mais de um século.

A independência da Argélia foi promulgada em 1962, após embates militares entre argelinos e franceses.

A independência da Argélia encerrou mais de 130 anos de domínio colonial francês.